
A televisão pública está, num programa com o seu quê de insólito, a fazer uma espécie de escrutínio das personagens que designa de "grandes portugueses". Talvez não haja na iniciativa outro objectivo que a conquista de audiências com um misto de simulacro de "diversão cultural" e de embuste de auscultação das simpatias historiográficas do grande público. Talvez se tenha visto no formato um pretexto para dar uma lição de História ao pessoal (ainda que que com um enfoque discutível). Mas, de um modo ou de outro, chegou o programa a uma selecção (por votação telefónica...) do que se pretende sejam os grandes nomes da lusa gesta pelos caminhos da História. Aparecem Camões e Pessoa, Gama e Afonso Henriques, Salazar, Aristides Sousa Mendes e Cunhal... Há-de o tele-povo, através de chamadas de valor acrescentado, fazer o sufrágio. Oxalá que não saia daqui uma surpresa, que até nos havíamos de rir, mesmo que sem graça nenhuma...
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Um dos nomes que surge na lista dos "finalistas" ao curioso galardão é o Senhor D. João, segundo pela graça de Deus na onomástica do trono de Portugal e dos Algarves, primeiro nas artes de Estado, dizem alguns entendidos. A presença do monarca do Tratado de Tordesilhas neste "top ten" da RTP sugere-me um episódio que convém relembrar sem comentários.
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Andava o rei D. João a braços com o apuramento das raças da espécie equina, cujo valimento nas guerras da cavalaria é desnecessário salientar, tendo-lhe sido chamada a atenção para o distúrbio que à dita selecção de raças causava o grande número de mulas - espécie que resulta do abastardado cruzamento dos nobres cavalos lusitanos com os seus aparentados inferiores - grande número de mulas que pelo reino proliferava incontroladamente.
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Para resolver a afronta que os muares causavam ao aperfeiçoamento genético das montadas que haviam de ajudar à eficácia bélica da nossa cavalaria e à consolidação do reino, decretou el-rei que deixassem de ser usadas, criadas e sustentadas as mulas, com vista à extinção do indesejado cruzamento das espécies, muar e equina.
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Mas a medida legislativa pôs em sobressalto a Igreja, posto que o clero regular tinha, à época, a mula como principal meio de transporte para espalhar a fé cristã e levar a liturgia de paróquia em paróquia. Proibirem-se as mulas seria um golpe fundo na logística da missão da evangelização católica, sabido que era impossível aos pastores da igreja católica fazerem a pé os longos percursos que lhes eram exigidos. A Santa Sé fez logo saber a D. João II que não podia acatar o decreto real - e argumentou que o poder do rei se exercia tão somente sobre a nobreza e o povo, que o clero estava sujeito ao poder de Roma e não ao do reino.
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O monarca viu-se entalado entre a frustração do seu objectivo de apuramento do garbo dos cavalos do reino - a que não se resignava - e um incidente diplomático com a poderosa Santa Sé - que por tudo queria evitar.
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No mesmo dia em que recebeu o agravo do poder eclesiástico, D. João II fez seguir a resposta de que não se intrometeria o rei a mandar no clero, pois que apenas sobre os seus temporais súbditos governava.
No dia seguinte, publicou um decreto que cominava a pena de morte a todo e qualquer ferrador que fosse encontrado a ferrar uma mula.