quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

61 anos do JF

O JORNAL DO FUNDÃO fez 61 anos
– e a edição desta semana comemora condignamente a efeméride.
Tenho pena de não poder arquivar no quadratim (porque a edição on line os não tem) alguns dos excelentes textos que fazem o suplemento especial do aniversário. Drumond de Andrade (que belo conto, o do arco-íris!), Dinis Machado, Vergílio Ferreira, Namora, Carlos Pinhão, Batista-Bastos e, claro, António Paulouro – tudo faria um registo que gostaria de não perder à velocidade a que o papel se vai…
. Apesar da extensão do texto, não desisti ainda de vir a guardar o superlativo estudo à volta do De Profundis de José Cardoso Pires, feito por Margarida Gil dos Reis. Esta “menina”, verdadeira senhora das nossas letras, não a pode o Fundão perder de vista, a bem do bom nome que para os fundanenses ela assegura!

O pensamento de Fernando Paulouro
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recomeçar, sempre!
. " O fio de palavras que tece estes 61 anos é um caminho que, à semelhança dos versos de António Machado, se faz andando, em passo firme e frontal, à procura de horizontes largos, descobrindo mundo, numa afirmação de liberdade que os dias foram moldando como certeza, a única certeza. Romper atavismos do meio, físicos e psicológicos, recusar o paroquialismo provinciano que gosta de viver sem ideias e abomina a crítica, combater a pobreza como fatalidade ou céu póstumo, furar o isolamento secular gerador de um atraso proverbial, reivindicar a cultura e a educação como vectores de futuro inadiável, dar voz colectiva a uma região recusando a irracionalidade de bairrismos, amplificar a voz do protesto e da indignação, são matrizes desse caminho que se faz e refaz na fidelidade à terra e ao homem. É preciso recomeçar sempre, eis a ideia projectiva que desenvolvemos, em equipa, semana a semana, distantes das sinecuras dos poderes, apostados na liberdade livre que é sempre o incómodo pão da informação. "
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expressão criadora
. " Quando se envolve o jornalismo em meros paramentos de poder e negócio e a cartilha da informação olha para os problemas reais da condição humana, como arcaísmos que a modernidade não comporta, velharias fora de circulação, então fazer do jornalismo de causas o reflexo de atenção à realidade social, é uma exigência moral que a matriz fundadora do “Jornal do Fundão”, aliás sintomaticamente implica e determina. Há hoje um recurso ao efémero, ao universo sensacional e menor de um certo espectáculo, mas a realidade todos os dias desmente esse vazio que uma certa narrativa informativa quer impingir como receita absoluta. Deviam meditar nas palavras intemporais de Sófocles, na Antígona: “Há muito coisa espantosa, mas nada há mais espantoso do que o homem”.
Se há um marco distintivo na história do “Jornal do Fundão”, é a faceta de ter materializadao a cultura como espaço fundamental da informação. É um património riquíssimo, a mostrar de certo como literatura e jornalismo se cruzam em múltiplas facetas. Essa perspectiva figura na própria abordagem dos géneros jornalísticos e na forma como o jornal se habituou a respirar com palavras de rigor e, ao mesmo tempo, com alta expressão criadora. "
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Editorial do JF de 25/01/2007
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Combates pela Liberdade
. " NA CLAREZA de um pensamento que havia de fazer dele um intelectual de referência mundial, Albert Camus, nos anos difíceis da Resistência à ocupação nazi de França, e depois na euforia da liberdade, fez da imprensa um valor supremo da liberdade. Batalhas de palavras, sempre em louvor do homem e da sua condição. Lendo os editoriais de Camus a Combat percebe-se a dimensão cívica e cultural do autor de O Mito de Sísifo, na recusa do acessório e efémero da vida social e política e na afirmação de tudo aquilo que, na sociedade, tinha marca de essencial e persistente. Na semana em que o “Jornal do Fundão” completa 61 anos – “tantos relatos, tantas perguntas” – é bom lembrar Camus como intemerato combatente por uma sociedade mais justa. É certo que no seu percurso ficcional ele mergulhou lucidamente nas perplexidades do absurdo humano, no peso dicotómico entre o bem e o mal, na impossível balança da justiça, e nessa autopsicografia geral da humanidade, na procura de uma consciência do real e dos limites à sua transformação, deixou implícito o grande desafio do pensamento como acto libertador de antigas ou modernas escravaturas. Talvez o limite das possibilidades do homem, na construção de uma sociedade justa, grande questão do nosso tempo, tenha sido antecipado como aviso pelo escritor argelino que morreu cedo. Seja como for, prevalece a sua mensagem: a informação, o jornalismo, só tem sentido se estiverem ao serviço do Homem e fizerem da liberdade um valor absoluto e inexpropriável. Nestes 61 anos, o “Jornal do Fundão” edificou-se ao lume dessa ideia de liberdade, consubstanciada na defesa da promoção de uma região equacionada à escala do país e do mundo. É esse inventário de notícias que o JF arquiva, como património comum. É, em extensão, o homem e as suas circunstâncias, seja na aventura de ficar na resistência e no projecto de querer transformar a Beira Interior, seja na ousadia de ir pelo mundo, à procura do pão elementar. Palavras que se confundem, não poucas vezes, com o sonho e a utopia, remando contra bloqueios, denunciando injustiças e compadrios, estimulando a crítica e o exercício da cidadania. Não esquecemos as contingências de proximidade, num país onde a crítica é olhada, às vezes, como delito comum. Não somos ingénuos. Sabemos muito bem o que é a hipocrisia e a bifacialidade política. Ao longo destes 61 anos, houve sempre os que sonharam com o silenciamento desta voz. Hoje, também não falta quem pense que a democracia é uma grande chatice. E a imprensa uma coisa incómoda. Porque pede contas. Avalia situações. E, sobretudo, porque faz o registo dos acontecimentos que emergem do quotidiano. No destacável que assinala, nesta edição, os 61 anos de jornal, fomos à memória das páginas. É muito significativo lembrar o que Vergílio Ferreira escreveu. Ele disse que o JF é “uma excelente e genérica expressão do país”. E explicou: “Porque a condensa e manifesta no seu essencial. Outros dirão que tal expressão nem sempre é “imparcial”. Mas a imparcialidade, no seu limite, talvez seja apenas – neles – a exacta expressão dos mortos”. A informação é coisa de vivos. E se alguma coisa paga as hipocrisias circunstanciais, as invejas, a idiotice convencida, a liturgia do unanimismo, é o rio solidário que nos acompanha, perto e longe, na tarefa de informar. Que melhor programa para o futuro do que estar vivo e escrever sol, como disse um dia António Ramos Rosa...
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