quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

Ensino Artístico Integrado


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Agarrar ou Matar Oportunidades

Quando, no JF da semana passada, me associei à indignação pelo menosprezo a que a Câmara do Fundão e o seu Pelouro da Cultura votam a Academia de Música e Dança, sinalizei que a falta de apoio à deslocação dos pianistas ao concurso internacional na Polónia é apenas a pequena ponta visível de um muito maior iceberg. Podia isto referir-se apenas à numérica comparação dos 1.500 euros que desta vez faltaram com os mais de 100.000 euros que o Município já tem em dívida para com a Academia – e facilmente se descortina que 100.000 euros são alguma coisa traduzidos em divulgação do Fundão, em salários de professores e em horas de aulas; como terão sido alguma coisa traduzidos em relatórios de actividades culturais do Município e em promoção da imagem realizadora da Câmara Municipal. Mas a chamada de atenção não era apenas, nem principalmente, para o deve-e-haver dos dinheiros municipais (apesar de ser uma tentação imaginar onde chegariam os músicos fundanenses se a Câmara investisse na Academia o mesmo que dá para o futebol – para tomar apenas um exemplo, escolhido aleatoriamente ou não.
A questão maior, a verdadeira questão, é que, se por um lado a Academia de Música e Dança do Fundão não chegou onde chegou por acaso, por outro lado o mesmo rigor de planos e métodos que a guindaram ao nível do que melhor se faz no país passou a exigir uma estruturação que não pode adiar-se. A direcção da escola apercebeu-se disso há muito e não se poupou a socorrer-se da inspiração e da experiência que vêm de onde lhe veio o sucesso já alcançado para assegurar a simbiose da continuidade do seu projecto com a realidade de desenvolvimento do Fundão: chama-se Ensino Artístico Integrado. O projecto, cujo desenvolvimento exigia a participação do Município, foi dado a partilhar à Câmara, mereceu a aprovação municipal e passou a protocolo formalizado no papel. Mas há três anos (serão já quatro?) que não passa disso: protocolo no papel. A dúvida que emerge desta inércia é a de onde morrem as energias que a Academia canalizou para o Município com a mesma idoneidade com que todos os meses traz para o Fundão prémios de prestígio nacional e internacional.
Talvez falte informar o Fundão do que significa uma escola de ensino artístico integrado – uma escola em que os talentos na música e na dança se descobrem e desenvolvem sem conflito com os curricula ou os programas da escolaridade regular, antes os complementando e valorizando, desde o início do ensino básico até ao ingresso no ensino superior; uma escola que permite capitalizar e estruturar os talentos dos alunos de hoje para a continuidade de métodos e qualidade de amanhã; uma escola em que os 500 actuais beneficiários da Academia (e mais) podem estudar a tempo inteiro para virem a ser músicos, bailarinos, médicos ou engenheiros sem o dilema entre a carreira que se pode errar por precoce e a vocação que se pode perder por tardia; uma escola que, aproveitando o capital de prestígio dos músicos da Academia e sendo pioneira em Portugal, afirmasse a singularidade do Fundão com a mesma segurança com que distinguiu os países que têm os melhores músicos e bailarinos do mundo, graças ao ensino artístico integrado (e que, pela música e pela dança, tem todas as condições para ser o traço de união entre a técnica e a experiência desses países e o aproveitamento delas pelos jovens portugueses); uma escola, finalmente, que até ajudaria a compatibilizar soluções de problemas municipais tão variados mas comunicantes como o da generalização da cultura e o da racionalização da rede do ensino básico e secundário. Já vai caduco o tempo em que os autarcas fundanenses chamavam visionário a quem se atrevia a projectar para um grande complexo do Parque das Tílias a trilogia ensino-cultura-singularidade que ao Fundão tão bem calhava.
Quando se pensa a criação de estruturas para o desenvolvimento local, nenhuma solução colhe tanta unanimidade como a do investimento no ensino. Porque as escolas fixam, atraem e voltam a fixar população, para já não se dizer – como se fosse o menos – que valorizam a população. E o Fundão vive, desde a extinção da Escola do Magistério, uma angústia de empreendedorismo académico que, ironicamente, se agrava quando se olha para aqui ao lado e se vê o crescimento quantitativo e qualitativo de Castelo Branco e Covilhã e o papel que o ensino de qualidade tem desempenhado nesses dois concelhos. A Escola Profissional, cumprindo a seu modo a função que dela se podia esperar, não bastou a essa angústia como cura, senão como lenitivo. E a Escola Superior de Turismo – que benvinda seja, e é – já nem isso chegou a ser. Nenhum fundanense acredita intimamente que o seja, apesar de (ou até por causa de) todas as equívocas tensões que a rodearam à nascença. A esperança é por cá maior do que uma turma de 30 vagas, preenchidas a custo.
Os fundanenses continuam a merecer e a precisar de uma grande escola. Passou o ano de mudança de Governo, passou o calendário de eleições autárquicas, passaram por cá figuras e teses sobre escolas – mas mal passaram das estafadas guerras de alecrim e manjerona. E o Fundão a vê-las passar.