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25 de Abril


O 25 de Abril como memória
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QUANDO, há 32 anos, o Movimento das Forças Armadas (MFA) restituiu a liberdade ao povo português e inscreveu Portugal no mapa das nações civilizadas, poucos ousariam pensar que a dinâmica de transformação política operasse mudanças de alcance social tão largo na sociedade portuguesa. Trinta e dois anos depois, num tempo em que a programação da amnésia histórica é um propósito continuado, é preciso lembrar “a apagada e vil tristeza” de um país que vivia “entre a mágoa e a França” (Manuel Alegre), onde os direitos humanos eram ficções banidas do concreto dos dias avergoados à pobreza e sem horizontes de futuro. Nesse plano, é preciso dizer-se que a situação social do país (”no meu país não se passa nada”, Rui Belo) reflexo de múltiplas subalternidades cívicas, em que as elementares condições de vida (padrões que graduavam, afinal, a dimensão civilizacional dos povos) era, nos versos do grande poeta Alexandre O’Neill, “um remorso colectivo”. De facto, o que o 25 de Abril tornou possível foi a emergência de uma verdadeira cidadania, em que a par dos direitos políticos, expropriados durante quase meio século (os portugueses eram meros súbditos da ditadura) se criou um horizonte de justiça, isto é, a possibilidade de uma felicidade mínima que o sorriso colectivo e a poesia na rua, na fabulosa caligrafia plástica de Vieira da Silva, consubstanciavam. Daí que qualquer paralelismo entre o antes e o depois de Abril, que alguns revisores da História se atrevem a fazer, seja não só imoral como desprovido de qualquer sustentabilidade factual. No complexo de direitos e garantias individuais, no carácter projectivo de uma organização económica conducente a uma sociedade mais justa, esperanças que o 25 de Abril abriu, se deve encontrar a exigência de um país que não seja apenas “três sílabas”, já agora “de plástico que era mais barato”, para voltar aos versos de O’Neill, mas uma pátria que se interrogue sobre o que fizeram à esperança prometida de um “Portugal futuro”. O 25 de Abril desbravou caminhos, autonomizou a consciência crítica e deixou, pelo menos, a semente cívica de que os direitos da pessoa humana se afirmam num tecido económico-social que atenue as desigualdades e faça do homem a medida de todas as coisas. Nos sobressaltos do tempo político que se viveu, muita coisa se edificou e se alterou qualitativamente. Mas, como acontece sempre, não faltaram políticas restauracionistas, aguilhoadas pelo entusiasmo de um tempo de capitalismo unipolar, dominante no mundo, que vai envenenando as relações internacionais e contaminou a própria Europa que, no epicentro do poder multinacional de matriz excessivamente capitalista, já põe em causa o modelo social europeu ou o coloca a reboque dos interesses dos mais poderosos. Num contexto em que a segurança internacional aumenta todos os dias (e lá se vai o preço do barril do petróleo!), a sociedade portuguesa atravessa um clima de pessimismo e neurose, decorrente das dificuldades de vida, do desemprego galopante, dos ricos cada vez mais ricos e dos pobres – que não param de aumentar – cada vez mais pobres. Os tempos vão de angústia generalizada. Abril já pouco mais é do que uma memória histórica. Ainda assim, tem tal poder simbólico, que muitos o gostariam de ver arrancado do calendário, como fez o soba da Madeira, ao arrepio das leis da República. Lembremos, pois, Abril. Sempre. Como exigência de maior justiça social. E de Paz.
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Jornal do Fundão, 20.Abr.2006, Editorial - Fernando Paulouro Neves