quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz
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.... Depois do bombástico tabu e da estrondosa operação de marketing engendrada para lançamento da sua candidatura a Belém (parecia ser já presidente de meia dúzia de repúblicas portuguesas), Cavaco veio dizer que ele é que é o homem, porque ele é que sabe de Finanças e “saber um pouco de Economia não faz mal a ninguém” – um pouco como cautela e caldos de galinha…
.... Lapidar, esta “inspirada” tese – sobretudo vinda de um candidato que logo adiantou que se fosse presidente queria intervir activamente na governação do país, mas já declarou bem saber que os poderes presidenciais não serão constitucionalmente alargados para o próximo mandato; queria então o senhor professor ser presidente de todos os portugueses para se meter em trabalhos que… são de exclusiva atribuição e competência de outros órgãos de soberania. Lapidar, desde logo, porque ainda a cadeira de Belém é apenas um projecto para os "laranjas" que o promovem e apoiam mas que ele promete renegar até à véspera do acto eleitoral e já o candidato se descai a anunciar que nos seus horizontes está o principal objectivo de ingerir nas competências alheias; qualquer coisa como propor-se exercer a principal competência presidencial de assegurar o respeito e o equilíbrio das instituições e órgãos do Estado desrespeitando e desequilibrando a acção própria do Governo e da Assembleia da República. Lapidar, depois, porque o homem de Boliqueime acha-se capaz de exercer a mais alta magistratura política afirmando que aquilo de que sabe é Economia, depois, de resto, de manifestar que nada tem que ver com os políticos.
.... São mau prenúncio, primeiro, a sombria realidade que é toda a área da direita portuguesa não ter melhor que uma tal (in)cultura da confusão dos mais elementares conceitos da ciência e da arte da política e, sobretudo, o facto de as sondagens estarem a dizer que em grande número os portugueses estão virados para se submeterem à desditosa confusão. Péssimo prenúncio, se a isto se juntar a razão principal das simpatias por Cavaco: a velhice de Mário Soares e a postergação do antigo presidente da república pela candidatura de um “jovem”... que já ultrapassou a idade da reforma. O candidato será bacoco, mas está mais longe da caducidade do que pelo menos um dos outros candidatos – e sabe de Finanças. Pouco interessará se é candidato a um cargo que exige, acima de tudo, cultura humanista; pouco interessará se ao candidato não se conhecem posições sobre questões tão essenciais como o papel dos portugueses na História da humanidade, o futuro das relações da cultura portuguesa com África, ou a estratégia da diplomacia portuguesa ante a globalização ou a iminência de uma guerra mundial – ou será que algum dos simpatizantes de Cavaco conhece, algum dos seus mais estrénuos apoiantes é capaz de nos dizer, que teses ou atitudes tomou a senhor professor perante tais capitais questões universais e nacionais durante todos os anos da sua vida?
.... Haver um candidato menos velho que o Dr. Mário Soares será o bastante para os eleitores depositarem a última palavra da nação numa qualquer cuspidela de bolo-rei? Acreditarão os portugueses que o combate ao lodo em que se tornou a actividade política deve ou pode ser liderado por um homem que, embora nada tenha conseguido de notório até ser lançado por um partido político a que agora se diz estranho, clama e demonstra pouco saber da arte da política?