quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

quadratim 20 - a cunha

.
"
Quem nunca meteu uma cunha para alguém entrar em determinado emprego? Ou pediu a uma prima enfermeira para facilitar a consulta de dermatologia? Ou ao amigo para ver se Câmara Municipal lhe colocava lá um caixote do lixo à porta? Faz parte da lógica de lubrificação da máquina burocrática. É por ainda sermos tão dependentes do Estado e da burocracia, e por estes funcionarem tão mal, que somos tão sicilianos neste “modus operandi”.
(…)
Sempre que se mete ou se aceita a mais simples cunha, estamos a extrair uma vantagem indevida e ilícita. Em bom português, estamos a passar a perna em alguém e a perpetuar o xico-espertismo nacional. Não contrariando e denunciando esta prática, contribuímos para a eternizar, e dificilmente podemos esperar que ela seja debelada nas esferas de influência que mais poder têm para a praticar.
(…)
O reino da trafulhice organizada em que este país se transformou (ou se calhar sempre foi, surdamente) não é reflexo da política ou dos políticos, é o espelho de um país que assobia para o ar quando não lhe convém, e desata a ulular ó da guarda! quando lhe toca na pele. É por isso que reina a impunidade. Porque a indignação esbaforida que perpassa os jornais e as conversas de café é tão eruptiva e efémera como as discussões sobre arbitragens após um derby. No fundo, existe uma espécie de desvalorização ética em relação à corrupção, aos arranjinhos ou ao tráfico de influências; sobretudo se forem praticados ao serviço de um pseudo-bem público, trocando sobreiros por alegados postos de trabalho e desenvolvimento. Na verdade, os portugueses estão-se a marimbar para se os políticos metem algum ao bolso, ou se os autarcas e os partidos andam à custa dos empreiteiros, ou se um árbitro apita à má-fila porque foi pago em rebaldarias sexuais. Estão-se nas tintas, desde que o político seja do seu partido e tenha obra feita lá na terra; desde que o autarca pague os ordenados em atraso do clube de futebol e vá construindo umas rotundas catitas; e desde que o árbitro apite a favor do seu clube.
Só assim se explica que Fátima Felgueiras, Isaltino Morais ou Valentim Loureiro pudessem ganhar eleições nas suas terras. Porque o povo julga que a trapaça foi em seu benefício.
Como dizia o escritor francês Henry de Montherlant “A política é como a linguiça, tem de cheirar um pouco a merda, mas não de mais.”
(…)
Portugal continuará a ser este pequeno paraíso dos grandes intrujões, enquanto não começarmos todos a limpar as mãos, mais ou menos sujas, em vez de as esfregarmos umas nas outras.
"
* Rui Pelejão Marques, "Corrupção a Bem da Nação" (Contra-Vapor), JF de 27.Mai.2005