
Franz...! Deixaste apenas 63 florins! Disseram-nos os que avaliaram a tua fortuna, quando a doença te levou desta vida. 10 foram contados como "músicas"; 53 como "roupas domésticas e pessoais".
Porque acumulaste "tanto", meu grande maroto?
Franz! Porque não tinhas tu um piano à tua frente quando compuseste O Rei dos Álamos?... Meu desgovernado Franz, que só conseguiste - e por apenas algum tempo - alugar um...!
Meu Franz Schubert, meu irmão músico: para que é que enviaste à sociedade Steinmark a sinfonia que têm dito ser incompleta? Para quê?! Afinal só a tocaram quarenta e tal anos depois!
E deixaste o assunto mal esclarecido: não disseste que a querias assim, com dois andamentos, apenas dois sublimes andamentos - terríveis, tão avassaladores que os músicos não queriam interpretá-la...
E a Grande? Diz-me, Franz: foi de propósito que quiseste ouvi-la do outro lado, de outra vida, para ser interpretada pela primeira vez por Mendelssohn? Bem... se era isso que querias.... Ou foi para surpreenderes Robert Schumann com a sua - como ele disse - celestial dimensão?
Franz... Que se passou contigo?
Um concerto público! Apenas um concerto público, uns meses antes de morreres?!
E vendeste ao Diabelli, por 800 florins, 12 cadernos com músicas... para ele ganhar 27.000 com apenas uma canção?!
Nunca soubeste cuidar de ti, meu Franz!
Aceita, Franz Schubert: nem o público, nem os músicos profissionais, nem os editores de Viena te admiravam!
Porquê essa consciência de te levar a dizer que só vieste ao mundo para compor?
Afinal, só meia dúzia te amava, te acompanhava, te ouvia! Conversavas mal, sabias?
Franz... Não orientaste bem a vida, nunca ganhaste a tua vida - é esta a verdade. Foi preciso o teu amigo Von Schober arranjar-te um quarto para viveres. As pessoas emprestavam-te dinheiro. Meses antes de morreres, tiveste de ir viver com o teu irmão para teres algum aconchego.
E as tuas ambições? Foram tão poucas! E os teus horizontes - tão estreitos! As tuas alegrias - tão banais!... Umas boémias de pobretana com os amigos...
Mas Franz, meu vagabundo vienense: Que te deu, para enganares assim os teus contemporâneos? Grande partida pregaste tu aos eruditos imbecis, que, ou não percebiam a ousadia de certas composições tuas, ou se aterravam com o poder da tua genial simplicidade!
Franz! Que fazes agora, companheiro dos maiores dos maiores? Não eras de muitas falas... mas que conversas tens tu com Monteverdi, Bach, Haendel, Haydn, Mozart, Beethoven, Mahler, Stravinsky? Já explicaste a Beethoven porque dele disseste que sabia tudo? Sabia, sabia... Por isso reconheceu em ti a centelha divina!
Que sabes tu, meu eterno viandante?
Onde vais reaparecer, meu querido Franz?