(Republicação - texto de Dez.2012)
Ali conhecemos o Citizen Kane, A Filha de Ryan, Ivan o Terrível e o Couraçado Potenkine;
Por lá fomos até ao Rio Bravo, a Batalha das Ardenas, a Ponte sobre o Rio Kwai;
e foi lá que se nos apresentaram Clark Gable e Brigitte Bardot, Sean Connery e Ava Gardner, Giulietta Massino e Bruce Lee, Ingrid Bergman e Tom Hanks, Charlie Chaplin e Meryl Streep.
E recebemos o TEUC e Laura Alves e Manuel Lereno e Raul Solnado - e as récitas dos finalistas do Externato e as vozes da rádio e da TV e os cantautores de Abril;
e dali se incomodou Salazar com a esperança de outras cores em eleições ou coisa parecida.
Depois vieram 20 anos de dúvidas, alvitres e medos diante do silêncio.
Depois vieram 20 anos de dúvidas, alvitres e medos diante do silêncio.
Depois chegaram os que nunca lá entraram – mas traziam escuras ideias de outro lucro. Com juros sobre a memória dos fundanenses e dividendos fáceis para promessas. Promessas com prazo de cumprimento a perder de vista. Com custos de meia dúzia de tapumes, que a seu tempo virão... e, quiçá, até ao dia do nunca. E só.
Sonho e devaneio
Em 1950 António Solipa Pereira era, porventura, um homem rico e feliz. Uma vida de sucesso (na emigração, salvo erro) proporcionava-lhe ‘pegar’ num sonho e concretizá-lo. Construíu um cine-teatro, digno e grandioso. E alterou o imaginário de três gerações – uma que viu realizada uma obra que por fascínio queria mas não conseguiria, outra que viu moldadas as suas conceções de cultura por uma influência marcante recebida dentro das quatro paredes de uma sala em que fez boa parte do seu crescimento, e uma outra que está a confrontar a aprendizagem da consciência de si própria com a quotidiana visão concreta e clara de um monumento-documento símbolo de vida e transfigurado em morte prolongada e violenta.
A geração “do meio” das três que com ele conviveram – aquela que percorreu infância, juventude e maturidade a par das do próprio Cine Gardunha – ficou com a sua própria vida individual misturada com a do cine-teatro. Matam-lhe por isso uma parte, uma parte boa, da sua própria vida, à medida que abatem a do edifício cinquentenário. As mil memórias de quem se fez homem a olhar aquele ecran gigante vão sendo magoadas, destruídas, roubadas à mistura com o cimento e o estuque daquela casa. Esfumam-se com a poeira dos escombros – e perdem a forma física que as manteve vivas e agora as sentencia.
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