quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz
Maranhão

Chegada a 8.Ago.2006. No aeroporto de São Luis, recebe-nos o Bumba-Meu-Boi, dança tradicional do Maranhão, dança de índios e escravos.

A primeira vista do centro histórico da capital São Luis dá-nos logo a perceber que este é outro Brasil.
Não estamos no cosmopolita Rio de Janeiro nem nas praias do nordeste, "assimiladas" pelos turistas europeus.
Estamos na terra dos maranhenses. Numa cidade fundada por portugueses ou franceses, mas numa terra que continua a ser ela própria
Aqui, vivemos o Brasil do nosso imaginário de sempre. O centro histórico de São Luis torna-nos seus.

Serenata. Coimbra

A 1ª noite é de partilha. O Município de São Luis organiza e os ludovicenses oferecem-nos a serenata noturna.

A banda de violão, cavaquinho, pandeiros, pandeireta, flauta, rabeca (e que mais, para além da voz?) segue na frente. Vamos todos a segui-la - os turistas e os da terra, que às quartas-feiras reservam a noite para o passeio noturno. Estamos na serenata!

À varanda do Palácio do Governador está um trovador. Lê versos de poetas maranhenses. E Fernando Pessoa.
O passeio dá a volta ao centro histórico. Todos vêm às portas das suas lojas ou às janelas de suas casas, para cantar com a banda - as músicas do "bumba-meu-boi", do forró maranhense, do Tico-Tico. Saudando os portugueses "nossos bisavós", também há "Nem às Paredes Confesso" e os próprios ludovicenses não dispensam que se cante "Coimbra".
Vão-nos contando a história da cidade. Bonito!

E a Rua de Portugal

Bem no centro histórico de São Luis, a Rua Portugal é uma extensa fiada de "casarões" de "sobrados", alguns dos quais revestidos de azulejos de riquíssima variedade, todos transportados de Portugal no tempo do império.

A rua é perpendicular à Rua do Comércio, principal centro do movimento da zona histórica. Durante o dia, respiramos ali o Brasil quieto e tradicional do "meio-norte" equatorial, enquadrando o comércio tradicional (curiosa a livraria "Poeme-se"). À noite, é o mais animado ponto de convívio.
Por ali pontificam restaurantes de excelente cozinha (destaque para o "Antigamente", na Rua do Comércio), que eu preferi para o almoço do 1º dia e onde jantámos num agradável serão com os casais Laura/João Moita (de Faro) e Conceição/António Vilaça (de Braga), companhia da melhor.

Verdadeiro achado neste Verão. O Maranhão tem tudo o que procura quem se cansou do turismo de pacote de um "primeiro mundo" decrépito e autofágico.

À porta da Amazónia (em quase tudo o que o pulmão do mundo tem de bom), o Maranhão tem claramente as costas voltadas para as vizinhas regiões do turismo brasileiro de hipermercado que se vende em Natal, Fortaleza, etc.

Ambiente e Património tornam imperdível este vasto canto do "meio-norte" brasileiro, onde até a romântica capital São Luis e a ilha em que se implanta estão bem conservadas.

São Luis é Património Mundial classificado pela UNESCO.

Cidade tranquila e acolhedora, faz da cultura rainha venerada e motor de desenvolvimento.

Os "casarões" e os "sobrados" das ruas estreitas e inclinadas (por vezes com os degraus que fazem lembrar Coimbra) são uma marca deixada pela perfeita mistura do império português e do classissismo francês com os traços da cultura autóctone, que nunca perderam a dignidade nem abdicaram da sua própria identidade.

Os Lençóis Maranhenses

Sai-se de São Luis e, por um percurso cheio de motivos para a câmara de video registar e a memória nunca mais perder, vai-se até à imperdível região de Barreirinhas - portal de acesso aos lençóis maranhenses, a jóia natural do estado.

Paraíso imenso, impecavelmente guardado de veículos, bicicletas, pranchas e lixo, estamos noutro mundo quando nos afoitamos pelos lençois maranhenses, centenas de lagoas de água doce numa extensão de 155.000 hectares. O parque dos lençóis está classificado como Património da Humanidade.

De Barreirinhas, sai-se num "pau-de-arara", tractor com bancos corridos na caixa de carga. Atravessa-se numa balsa o rio abundante de margens "vedadas" pela vegetação de mangue, que mais parece uma imensa sebe plantada no leito do rio. Continua-se, em piso de areia macia, pelo meio do mangue selvagem e imponente (faz lembrar África...). Depois de quarenta e cinco minutos de aventura, a vegetação cessa subitamente... e chegámos à porta dos lençóis maranhenses. Pode-se conquistar todo, desde que a pé e sem transportar ferramentas nem deixar o ínfimo resíduo. Adiante, uma imensidão de dunas claras e lagoas azuis.

Deserto povoado de imensas lagoas azuis? "Mar" interior, de água doce e mil dunas de areia macia e branca? Talvez ambos - e o orgulho de todos os maranhenses, velhos e novos, letrados e analfabetos. Ninguém permite que a natureza seja perturbada. Caminhar pelas dunas e descer para mergulhar nas extensas lagoas auis e cristalinas é fugir de um planeta que o Homem amaldiçoou. A vista aérea é um assombro:

Indispensável ver e sentir de perto, lá em baixo.

Indescritível a experiência de caminhar por aquelas dunas e nadar naquelas lagoas...

Fazemo-nos à caminhada. O guia (um dos muitos jovens maranhenses em voluntariado) conta mil pormenores do labor dos seus concidadãos pela preservação deste paraíso. Leva um guarda-sol, não vá o astro-rei equatorial estragar o passeio a um europeu incauto.
.
Mas aquela luz é para sentir na pele. Aquelas luminosidades variadas que as nuvens nos dão...

O mergulho vem a seguir. 

E o anoitecer no parque dos lençóis maranhenses? Não há palavras...