quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz
conversar                                       

Precisamos conversar.
Não me refiro, com este plural, à generalidade das pessoas, ao ser humano ou social, como quem diz "as pessoas têm necessidade de conversa" 
Não. Falo de nós dois, tu e eu.
Parece patético dizer que deveríamos estar hoje, agora, juntos e frente a frente, talvez com as minhas mãos descansando nas tuas, certamente olhos nos olhos.
É, em boa verdade, um absurdo falar neste condicional - como um mero supor - quando é a conversar que estamos desde que comecei a escrever.
Estamos, afinal e aqui mesmo nestas palavras escritas, na mais habitual das nossas conversas, na forma mais comum de dialogar que existe entre nós:
estou eu a falar contigo como se tu existisses, como se existíssemos os dois - e existimos mesmo. Mesmo assim, como somos,
sem nos vermos nem nos tocarmos, sem tu teres nos ouvidos a minha voz nem eu ter no olfato o teu perfume - mas tendo-nos um ao outro com tudo isso, à nossa maneira, a única maneira por que nos conhecemos.
É assim que existimos, nós dois.
Nunca nos tivemos de outro modo - e é assim que nos temos durante todo este tempo em que existes na minha vida e eu na tua. Eu falo para ti, a quem tão bem vejo agora, por cima do sono que a esta hora repousa na cama do teu quarto, e tu ouves-me por detrás do silêncio que paira na sala em que estou só.
É assim que existimos, tu e eu, nós os dois.
Confortamo-nos, sentimo-nos juntos, fazemo-nos bem.
O teu sono e o meu silêncio só existem no mundo turvo e defeituoso da realidade. E esse não é o nosso mundo. Nunca foi, não tivemos oportunidade de o habitarmos juntos.
Precisávamos conversar. E aqui estamos a  fazê-lo;
aqui estou eu serenando na tua companhia, aqui te vejo a ti de olhos brilhantes perfurando o silêncio em que nunca conseguiste disfarçar-te. Entregues um ao outro, total e cristalinamente - "as usual"...
E foi bom este momento contigo,
tão bom como são todos os momentos de todos os dias que passamos juntos desde que nos conhecemos.
Disse-te tudo, em forma de nada: Nada ouviste de mim, mas nada calei; nada viste revelado, mas nada escondi. Estivemos em silêncio mas ficou tudo dito. Por ambos nós. Disse-to eu nestas palavras que estou a concluir; e ouviste-o tu no momento em que, um dia, leres esta página e confirmares que hoje, a esta minha hora (que horas são?), estiveste mesmo a ouvir de mim estas mesmíssimas palavras.
E prosseguimos; prosseguimos neste agora em que estarás a ler-me um dia; e, afinal, estivemos juntos, tão juntos e síncrones naquela noite em que sozinho te escrevo. Sem despedidas. Como se fosse até já. Sempre.
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