quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz
Dia Mundial da Dança
A Arte Sublime

A mulher que me fez abrir os olhos...

Ou pela minha declarada e manifesta ignorância ou pela assoberbada paixão pela Música, fui com a promessa de assistir ao espectáculo de olhos fechados, da primeira vez que entrei no S. Carlos. Transigir com a mulher que escolhi para companheira era o que me levava a assistir a um bailado – e fechar os olhos dispensava-me de ver o que não me interessava e ajudava-me a concentrar os ouvidos no que achava verdadeiramente importante. O magnífico Tchaikowsky, a excelente orquestra e a incomparável acústica da sala proporcionaram-me uma soirée inesquecível. Repeti-a umas quantas vezes – sempre de olhos fechados.
O bailado era, para mim, uma aprendizagem inútil. O “Lago dos Cisnes”, o “Quebra-Nozes”, o “Pássaro de Fogo”, para já não falar das inúmeras coreografias em que acompanhei os meus filhos, por dever conjugal e estímulo do amor maternal – mereceram sempre a mesma atitude: apreciar a música, a minha Música.
Mas um dia dos idos de 1985 ou 1986, estávamos em Madrid, o gigantesco cartaz da frontaria do Teatro no topo da Gran Via espicassou-me a curiosidade: As letras garrafais, que mais pareciam o único nome no cartaz, impediam qualquer distracção: Maya Plisetskaya, a “enorme”, a prima ballerina assoluta do Bolshoi e da sua arte! Veio-me à memória uma afirmação do mestre António Leitão, nos recuados tempos em que do palco para baixo apreciávamos os dançarinos dos bailes que para mim eram também apenas música: “dançam bem os que têm a música dentro de si mesmos”.

Aquela “descoberta” de Maya Plisetskaya valeu-me uma enorme admiração pelo bailado – expressão mais perfeita da musicalidade vivida com o corpo todo, como que prodigioso movimento de uma maré em que se descortinam todos os detalhes da beleza das águas. Desde então, vi a singular prima ballerina apenas em filme e por recordação dos maiores tempos dos anos 50, 60, 70; mas não me perguntem quantas vezes já “devorei” as interpretações dela de “A Morte do Cisne”, de “O Cisne Negro”, da arena da Carmen (onde a Música nos traz a beleza da capa, da espada, do cavalo e do próprio touro – como se o toureio não fosse o triste espectáculo de morte desproporcionada e injusta que é.
...e o homem que me deixou boquiaberto

Daquela verdadeira revelação fui andando por outros nomes e outras áreas do bailado – de Nijinsky (que nem o cinema nem o animatógrafo chegaram a tempo de nos guardar) ou Margot, a Béjart ou Pina Bausch, há uma imensidão de lentes que nos ajudam a ver a Música mais significante, mais perfeita, mais completa, mais humana.

E por esse caminho encontrei Mikhail Baryshnikov. A prova de que o bailado não tem género, a demonstração de que a perfeição não é impossível, embora esteja reservada aos raros seres que pela arte sublime nos dão a evidência de que a imortalidade está acessível ao ser humano.








29.ABR.2020