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Belenenses dividido em dois
MARCO VAZA, ‘Público’ 30 de Setembro de 2018,
Clube de Futebol Os Belenenses nasceu a 23 de Setembro de 1919. Oitenta anos depois, a 18 de Novembro de 1999, foi formalizada em escritura a Sociedade Anónima Desportiva do CF Os Belenenses para gerir o futebol profissional. A 14 de Novembro de 2012, os sócios do Belenenses aprovaram venda da maioria do capital da sociedade à Codecity Sports Management, um fundo de investimento liderado por Rui Pedro Soares. A 30 de Setembro de 2018, duas equipas com Belenenses no nome e que equipam de azul entraram em acção em dois campeonatos que não podiam ser mais diferentes. O Belenenses SAD jogou com o Sp. Braga no Jamor para a I Liga, o CF Belenenses jogou no Restelo com o CDOM-Parque das Nações para os distritais de Lisboa.

Estas quatro datas servem para enquadrar o que se passa neste Belenenses dividido em dois. De um lado Rui Pedro Soares e a SAD, que controla o futebol profissional, com todas as despesas e receitas associadas, e que está a tentar montar uma estrutura de formação no futebol, tendo, de momento, apenas duas equipas a seu cargo, a que está na I Liga e a equipa sub-23 que participa na liga revelação. Do outro lado está Patrick Morais de Carvalho e o clube, que tem tudo o resto, o futebol de formação, as modalidades amadoras (cerca de cinco mil atletas em todos os escalões de todas as modalidades), o património do clube, entre terrenos e o estádio do Restelo. Os jogos do Belenenses SAD têm transmissão em directo na Sport TV, os do clube estão numa plataforma de “streaming”.

É assim que está a divisão de bens dos dois Belenenses, depois de uma votação dos sócios do Belenenses em AG ter decidido pelo caminho da secessão, motivada por ter havido uma decisão judicial que dava razão à SAD quanto à extinção do acordo parassocial assinado em 2012 e que previa a recompra da maioria do capital da sociedade por parte do clube. O clube ainda mantém uma participação de 10 por cento na SAD, algo que irá deixar de ser verdade em breve, garante Patrick Morais de Carvalho. “Não tem qualquer interesse nessa participação da sociedade que criou e vai desfazer-se dela em tempo oportuno”, diz o presidente dos “azuis” do Restelo, frisando que estão a correr uma providência cautelar para impedir a SAD de utilizar tudo o que esteja relacionado com a marca Belenenses, depois de a equipa da SAD já ter sido impedida de utilizar o Restelo como base de treino e de competição, algo que estava também previsto no acordo parassocial.

O presidente do Belenenses eleito em 2014 diz que já não há qualquer hipótese de reunião com a sociedade liderada por Rui Pedro Soares, e que o clube vai manter o seu caminho, pensando chegar ao topo do futebol português em cinco ou seis anos. “O veredicto deste diferendo entre clube e SAD é dado aqui neste tribunal do Restelo. Não há dúvidas de quem representa o Belenenses, não há dúvidas do que os adeptos e sócios querem fazer. Aquelas pessoas e aquela equipa representam alguma coisa, mas não representam o Belenenses”, acrescenta, deixando, também, recados à Liga e à FPF: “Gostaria que Fernando Gomes e Pedro Proença tivessem estado aqui. Têm de olhar para isto, mas também se quiserem fazer de conta que não se passa nada, também podem.”

A equipa que entrou neste domingo em campo foi feita em mês e meio. Taira é o director-desportivo e, ao PÚBLICO, falou de como foi construir uma equipa a partir do zero. “Tínhamos um perfil de jogador que queríamos. Sabíamos que a realidade não é o ideal, mas queríamos jogadores identificados com o clube. Tínhamos uma lista e fizemos treinos de captação”, recordou o antigo médio que chegou a ser internacional português.

Nuno Oliveira, o treinador, reconhece que o tempo não foi muito para preparar a equipa para competição, mas diz que tal foi compensado com o “orgulho que os jogadores sentem em representar o Belenenses”. “Estes jogadores foram escolhidos a dedo. Uma das questões mais importantes foi a de saber como iriam sentir este emblema. A grande maioria destes jogadores tem passado neste clube”, refere o técnico de 31 anos. Ricardo Viegas, que marcou três golos é um deles, Alex Figueiredo, central e capitão de equipa, e já se vê a jogar na I Liga com esta camisola. “Espero que sim, se tudo correr bem e continuarem a contar comigo, cá estarei.”