quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

Redes Pessoais - Rogério

Redes Pessoais - Rogério

21.FEV.2015
Amigo, vejo-te em paz, entre os teus, no teu ninho. E também eu sou homem de ninhos, embora ainda vá esvoaçando fora dele. Com cada vez menos vontade. Com cada vez menos crença. Os lobos cavalgam que nem gentes. E nós aqui. Não desististe de ti, nem do mundo. Apenas aconteceu o que é. O que és. O que sou ou somos. Não nos perdemos, e fico feliz de saber que não te fiz mal. Eu faço mal às pessoas, mesmo às que amo. Ou especialmente a estas. E não me estou a vitimizar, que mil rogérios vividos já me ensinaram como ser homem. Não que o seja. Mas sou neto da minha avó. Ter-te na minha vida foi, é uma imensa honra. Contigo aprendo caminhos, coragem, tolerância. Mas nem mil anos vividos de mim chegariam para os teus sessentas. Tenho a sensação que não precisamos de acontecer para acontecer. Mas vem-me à garganta um nó de saudade. Ao lembrar-me da forma como te ouvia chamar-me Roger. Tenho saudades da tua voz, ou o caralho (desculpa). E não me desapareceste, embora tenha sérias dúvidas que algo semelhante ao antes se repita. Mas quem quer sequelas mal-paridas do que foi? E é isto. És e ser-me-ás sempre. Estás vivo como nunca te senti. E paro por aqui, antes que me venha ao olhar o funeral blues do auden. Os homens também choram, certo? Espero que sim. Abraço do teu amigo.

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10.JAN.2016
Olá, António. É uma pena que tenhamos deixado que o tempo e os tempos nos afastassem desta forma. Continuo como saudades de nós. Mas sinto-me um sinal proibido. Abraço, companheiro.
Ó Roger, tu não és um "sinal proibido"! Para mim, não és - de modo algum. Não te apareço, apenas porque não apareço a ninguém (é curioso que ao princípio da noite eu tenha dito o mesmo a um bom amigo com quem não estou há mais de 2 anos).
Não te escondo que a vida algo "singular" que hoje tenho resulta em boa parte de opção. Cansei-me dos tribunais (faço dentro de 3 semanas 40 anos de profissão) mas continuo a adorar o Direito - do que resultou que sou hoje um rato de secretária, adjunto do Pedro, e vivo os meus próprios horários de escritório, no essencial das 3 da tarde à meia-noite, com intervalo ao final da tarde para brincar com os meus netos e praticar o meu piano - e os meus longos serões são com a Isabel, no cumprimento de uma velha (quase ancestral) promessa de compensação.
É um paradigma esquisito, se calhar, mas tenho sido feliz. E, sabes?, sinto que o peso da idade e a frescura das energias se dão muito bem com este estalão de gozo da reforma.
Não me leves a mal, pois. E, nunca por nunca ser, interpretes estas opções como desconsideradoras ou frias relativamente à tua pessoa. Apenas me cumpro, na vertigem de asceta que segurei durante 60 anos e em que agora me embebedo, naquela coqueluche em que nos embebeda a realização de sonhos adiados havia demasiado tempo.
Perdoa-me este egoismo de me comprazer a renovar as boas memórias que tenho de ti acompanhando o que mais te admiro: o que escreves, o que pensas, a intensidade apaixonada que dedicas à Vida. E releva-me este recolhimento, em vista da disponibilidade ilimitada que dei à vida social durante os "anos-de-ouro" que me foram os 20, os 30, os 40... Quando passei pelo pesadelo de poder perder a minha filha, em 2012, a minha vida deu um mortal de costas, assumo. Mas era inevitável essa epifania. A vida corre-me, com uma fugacidade que nunca imaginei - e eu esfalfo-me voraz atrás dela.
Como já disse, sigo-te a escrita e o pensamento - e gosto de te ler e leio-te com admiração e com carinho. As tuas angústias com as questões como o arrefecimento com o Filipe, a desilusão com um Povo dormente e obscuro, o vaivém da Esperança por um mundo novo - tudo isso vejo como um percurso (que tão bem conheço!) visceral, constitucional, inelutável, benigno. Não tecanses, que é muito cedo! É assim que te cumpres. Investes no amor-próprio que daqui a uns anos te será precioso, no julgamento que todos nós fazemos do sentido que demos a esta tenebrosa mas fascinante aventura que é passar pelo espaço e pelo tempo que a História nos concedeu.
Fica com um abraço dos nossos