O País tem desde há um mês o centro das atenções nas conversações entre PS e PCP com vista à inauguração de um novo ciclo político. Pareceria muito, um mês, se não se tratasse do epílogo de 40 anos de diálogo – algumas vezes considerado pouco digno desse nome por aqueles que nunca acreditaram no seu sucesso. Mas nem por isso deixou de ser diálogo o que nestas quatro décadas mantiveram estes dois partidos principais fundadores da Democracia em Portugal – porque o diálogo é, em democracia, isso mesmo: o debate de ideias divergentes, mesmo que com firmeza na afirmação de princípios diferenciadores, mesmo que quantas vezes com crispação no dissenso em torno do modo particular e específico de por em prática valores que são genericamente comuns. Assim se faz em democracia construtiva, progressiva, fecunda, assim se consolidam e evoluem os valores que para ambos os contendores são sagrados mas para os quais cada um deles acredita ter a mais eficaz e viável forma de levar à prática. É isso a luta partidária e reside nisso a razão de ser dos partidos.
A história do debate entre estes dois partidos tem tudo a ver com o momento que o país atravessa. Discute-se hoje, com os mais variados (por vezes extravagantes) argumentos, qual foi o verdadeiro sentido do voto dos eleitores no passado dia 4 de outubro – qual é verdadeiramente a vontade dos portugueses. Chegou a dizer-se que a contagem dos votos teria que ser feita à luz do que o amor pela Europa (ou uma certa Europa…), pela NATO e até por aquilo que quis configurar como uma “tradição” do modo de agrupar votos, selecionar conjugações de entendimentos, condicionar a formação da maioria que há-de governar. Na fúria com que cada um quis reclamar ter a propriedade da razão, a discussão chegou à paranoia de haver partidos a pretenderem definir qual seria a “boa” ideologia dos outros partidos – concretamente, que o maior partido da Esquerda devesse ser…aquilo que os partidos da Direita queriam que fosse. A Direita, liderada e inspirada por uma patética fúria de Cavaco Silva que passou para os anais como a mais infeliz atitude de um presidente nas democracias europeias, arrogou-se o direito a não só ser Direita, mas ir mais longe e ser ela a definir como deveria ser a Esquerda – e foi até ao absurdo de ameaçar fazer tudo para reservar o poder de administração da soberania do País a quem pusesse acima da soberania nacional a obediência ao diktat do directório europeu actualmente dominante (o que foi, assim, autêntica exortação ao crime de traição à Pátria). E a paranoia chegou ao delírio de se promoverem manifestações, comunicados e manifestos a “reclamar” que o maior partido da Esquerda se entendesse com a Direita, virando as costas à sua própria área ideológica, ao seu programa estatutário e ao ideário da sua própria existência.
Esta incursão do surrealismo pela Política passou. Tão rápida e facilmente como o despertar para a evidência de que a formação de um Governo resulta da decisão da maioria dos eleitores. Tão evidentemente como apurar uma maioria ser tão simples quanto somar os votos colhidos nas urnas – tão evidentemente como apurar os votos ser tão linear quanto abrir os boletins de voto e contar as cruzes. Em presença de uma luta de 38% dos votos contra 62% dos votos, discutir onde está a maioria passou da paranoia ao intelectualmente ridículo, ao politicamente sinistro. A questão, ficou muito claro, era que a minoria não aceita entregar o poder à maioria. A Direita não queria – não quer – largar o poder.
É aqui, precisamente, que esta singularidade do actual momento político faz acordar para a realidade nacional as direcções do Partido Socialista e do Partido Comunista Português. O irracional fanatismo com que a Direita se agarra ao poder fez soar na Esquerda o alarme da defesa do regime, do Povo, da Pátria.
(Continua)
(Continua)
