Fiquei boquiaberto diante do “cuidado” com que os autarcas laranjas preparavam as
mesas de voto – mais de 90% presididas por delegados seus. Um advogado que foi delegado
mesas de voto – mais de 90% presididas por delegados seus. Um advogado que foi delegado
numa freguesia conhecida pela “carneirada” em avalanche telefonou-me meia hora depois da
abertura das urnas, dizendo que nada havia a fazer ali, os idosos e rurais chegavam em
carrinhas do médico e do padre da freguesia e dirigiam-se ao presidente da junta
(um jovem 'jota') para lhes ensinar como votar. Noutra freguesia, um partido de oposição
alertou para o senhor prior que trazia os idosos em magotes e, deixando-os no autocarro,
ia ele próprio buscar um molho de boletins de voto que depois trazia para a urna. E isto
multiplicava-se pelas freguesias do concelho. Um concelho grande, com muitas freguesias
– em cuja sede (uma cidade!) os delegados laranjas que presidiam às mesas de voto
preenchiam os cadernos eleitorais a lápis!
O QUE JÁ HOJE SABEMOS
Amanhã o País vai a votos. E andamos quase todos ansiosos para saber, lá pelas oito da noite, por que alegre caminho segue esta triste Democracia – ou vice-versa. Mas haverá assim tantas dúvidas sobre o que vai passar no ecran da TV amanhã à noite?
Tenho – acho que temos todos – um palpite. A coligação PSD/CDS terá uma queda estrondosa para os 100 mandatos ou pouco mais, uns 30 deputados que vão “ao ar” e a maioria que se evapora com eles. Mas, mesmo com a Esquerda a passar para a maioria, virão Marco António ou Nobre Guedes ou Nuno Melo ou todos juntos celebrar “vitória” e dizer que a sua minoria é menos minoria que a dos outros e que isso é uma vitória “clara” e que têm a “confiança” dos portugueses. E, já agora, que estão em condições de governar…
O que nós não sabemos, nem imaginamos, é que a direita terá mesmo conseguido uma vitória. Apesar de menos votos (muito menos), apesar de não ter sequer o partido mais votado, apesar de perder a maioria e as condições de governar – mesmo assim, terá conseguido. Conseguiu, já hoje conseguiu, por a malta a pensar que a derrota foi uma pequena derrota. Conseguirá por a malta a pensar que aquilo que interessa é o PS ter menos mandatos do que PSD e CDS juntos. Conseguirão, afinal, passar a ideia de que se os votos dos portugueses não permitem ao PS governar sozinho… então são eles, a direita, quem pode governar. Mesmo sem maioria – ou seja, mesmo contra a maioria dos portugueses!
Porque a política deles é a propaganda. Pouco interessa o que é a realidade, pouco interessa que tenham menos votos – o que importa é que passe a mensagem. É assim. Como se viu pela atitude da comunicação social na cobertura da campanha eleitoral, que chegou a ser ridícula, tragicamente ridícula. Mas há mais.
Há mais razões para o PSD e o CDS sentirem que atingiram o seu objectivo. Mesmo perdendo muitos votos, mesmo que se confirme o que todas as sondagens indicam: todos os partidos a subir menos PSD/CDS que descerão e muitíssimo. Há mais razões e mais fortes.
Aquilo para que PSD e CDS trabalham não é pelo apoio popular, é pelo poder. E trabalham por três principais meios: o medo que, enquanto governantes, criam no eleitorado; a manipulação da população ignorante (pela comunicação social, pelo caciquismo de autarquias e pela enorme ajuda de um grande sector da Igreja); e pela habitual chapelada que codiciosamente programam na composição das mesas de voto.
Do medo e da manipulação todos sabemos – tivemos tudo bem à vista nos últimos dias. Já a ‘chapelada’ tem mais que se lhe diga.
Participei uma vez numa campanha eleitoral. Fiquei boquiaberto diante do “cuidado” com que os autarcas laranjas preparavam as mesas de voto – mais de 90% presididas por delegados seus. Um advogado a quem pedi que fosse meu delegado numa freguesia conhecida pela “carneirada” em avalanche telefonou-me meia hora depois da abertura das urnas, dizendo que nada havia a fazer ali, os idosos e rurais chegavam em carrinhas do médico e do padre da freguesia e dirigiam-se ao presidente da junta (um jovem, pouco mais que miúdo) para lhes ensinar onde é que se punha o voto. Noutra freguesia, os delegados de um partido de oposição alertaram para o senhor prior que trazia os idosos em magotes e, deixando-os no autocarro, ia ele próprio buscar um molhinho de boletins de voto que depois devolvia já preenchidos. E isto multiplicava-se pelas freguesias do concelho. Um concelho grande, com muitas freguesias – em cuja sede (uma cidade!) os delegados laranjas que presidiam às mesas de voto preenchiam os cadernos eleitorais a lápis!
É isto de espantar? É, sim, é para muita gente. E foi para mim, da única vez em que vi de perto a moscambilha. Perguntei se era sempre assim. Que sim, que era assim mesmo por ali e por todo o país. E tive de conferir, com estes dois que a terra há-de comer, que numa freguesia beirã chegou a haver uma eleição em que 100% dos eleitores votaram… e votaram, todos sem excepção, no PSD. Tal e qual: 346 eleitores, 346 presentes, zero abstenções, zero votos brancos, zero votos nulos, zero para todos os outros partidos, e todos os 346 votos para o PSD. A oposição quis ver a urna de voto… mas o presidente da junta tinha-a levado para casa.
É este o trabalho das PaF’s que andam por este malfadado país há 40 anos – ou, melhor dizendo, há 89 anos. É por ver os seus resultados que amanhã, quando forem oito da noite, eles estarão a cantar vitória. Mesmo com a maioria dos votos na esquerda. Mesmo que todos os partidos subam e a Coligação PàF desça e seja a única força a perder deputados e perca muitos deputados, dezenas deles.
Afinal, para os PaF’s interessará apenas saber uma coisa: alguém desmascarou a chapelada? Se ninguém a desmascarou, então terá sido uma “grande jornada da Democracia”, os eleitores terão sido “um Povo maduro e cívico”, tudo estará bem. Aí estará a sua vitória.
E não nos admiremos se chegarem mesmo à maioria absoluta. Para isso trabalharam.