quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz
D. Maria Rosa, 21 anos

E eu exasperado na preparação de me ir à selva. E sexta-feira e já hora de fechar. E já na segunda a selva, a selva execrável e inaudita - a verdadeira selva.
E tinha que ser agora? Tinham que me entregar a carta naquele agora mesmo.
Não era uma carta, era só o envelope. Só o envelope, não - dois nomes do lado de fora. Remetente e destinatário. Destinatário, eu (e quem havia de ser?) e remetente quase ninguém. Porque "Rosa C. G." era ninguém para os meus conhecimentos. Ou para as minhas memórias...
Por dentro, nada. Qual carta? - nem uma palavra. Nem um papel. Só cinco notas de cinquenta euros.
Mais esta! e eu, se calhar, adivinho...!
Que vissem os ficheiros, que perguntassem a todos, que puxassem pelas cabeças. Que ao menos me descrevessem a criatura.
E viram e perguntaram e puxaram. E descreveram. E nada. Só uma idosa e uma bengala.
E cinco notas de cinquenta euros, ali em cima da minha secretária. E eu sem saber donde. Nem porquê. Nem para quê. Nem para quem.

Segunda-feira foi outro dia. Entrada da semana e do mês - e entrada na selva. Melhor dizendo, era uma reentrada, na selva que havia dias, semanas e meses me consomia os fígados de advogado, me enojava a alma de cidadão. Na opulência que por aí vai, nos arranjos e conveniências do mundo, há muita miséria descoberta. Chamar-lhe injustiça é demasiado brando - e a injustiça está feita tal banalidade, hoje em dia...
Andava-me por estas lides mal-cheirosas, tão longe da minha oficina quanto da tranquilidade que sempre nos vem da higiene moral transpirada da gente cujo ar respiramos e partilhamos por escolha. No aconchego da minha bancada de trabalho (que longe a senti, dois dias a fio!) repousavam as cinco notas de cinquenta euros. Cinco notas filhas de incógnito amor - ou volúpia,.. sabia lá eu!
Eram filhas de sangue, afinal. Filhas de corpo maduro e alma sem idade. Ficaram a sabê-lo os meus, primeiro que eu - mais uma vez.
Apareceu-lhes a mãe, em corpo de avó. E eu não estava lá, estava longe (e se alguém soubesse tão longe que eu estava do mundo que acontecia ali, no aconchego simples da minha oficina...!).
"Não me encontraram no ficheiro? Sou Rosa, sim - Maria Rosa". E foi na anunciação de Maria que a Rosa se abriu.
Naquela segunda-feira, naquela segunda viagem, D. Maria Rosa só queria ver-me. Que era só para me agradecer. Que era normal não nos lembrarmos dela ("olhe que já foi em 1994!"). Tivera uma grande aflição e pelo telefone soubera que podia ir ter comigo. E tudo se resolveu em bem e a conta eram cinquenta contos e o senhor doutor disse-lhe que pagava quando pudesse.
"Só pude agora..."
E eu tão longe dali. E eu no meio daquela selva, que me enfiava pelos olhos dentro a soberba e a miséria do inferno. Tão longe dali, a escassos dezoito quilómetros do mundo que D. Maria Rosa ressuscitou diante da minha oficina, por cima da minha bancada.
Não me viu, afinal. E eu, quanto quereria ver os olhos daquela alma! Melhor não tê-los visto. Melhor não ver hoje, tantas vidas depois, as rugas de D. Maria Rosa. Melhor não ter diante dos meus olhos a lembrança do que seriam, há vinte e um anos, cinquenta contos. Acumulados numa  moeda que os mercados financeiros já retiraram de circulação. Pagos por um valor que já não existe.