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24.Jan.2015

Não perdoo o PS

A bazooka europeia ao serviço da banca e da austeridade

Que Passos Coelho diga as asneiras que tem dito a propósito da decisão do Banco Central Europeu, eu compreendo. Há muito que sabemos que o primeiro-ministro é um acidente genético do liberalismo, mais que um cancro da democracia. Mas António Costa, um homem que tem cultura política e fez o curso de Direito num tempo e numa escola em que se aprendia economia e política monetária a sério – esse não pode ignorar que a chamada “bazooka” de euros com que o BCE vai inundar o mercado das dívidas públicas europeias não é mais do que uma tentativa de salvação dos moribundos vampiros da Europa: a banca e o capitalismo selvagem.
Os 60.000 milhões de euros que o BCE vai fabricar mensalmente são dinheiro, muito dinheiro – mas não são riqueza. Fabricar notas de papel aos biliões será eficaz, sim, para transformar a deflação em inflação, não contesto. Mas a inflação vinda desse dinheiro “fictício” vai resolver o quê? Vai atalhar os problemas da banca e viabilizar o reforço da austeridade. Por duas vias perversas e sinistras.
A primeira: O BCE e o FMI receberão dos países endividados o que lhes emprestaram, emprestando mais dinheiro a esses países (e aumentando as respetivas dívidas) – dinheiro esse que vai direitinho e todo para a banca. Para a banca privada comprar a dívida dos Estados soberanos… e os Estados soberanos ficarem com mais e mais juros para pagar. O BCE e o FMI fogem do risco das dívidas e a banca privada aufere mais juros dos Estados soberanos. Dos impostos brutais dos Estados, entenda-se.
A segunda: “Quem imprime dinheiro imprime papel, que não vale nada a não ser que se reduza o custo unitário do trabalho para garantir esse papel impresso”. Regra elementar, esta, em Economia e em políticas monetárias. O dinheiro injetado massivamente serve à subida generalizada dos preços e do custo de vida, o que se traduz, afinal… na redução do nível real dos salários. Ora, provocando-se a queda abrupta dos salários faz-se entrar pela porta o que já não se consegue fazer entrar mais pela janela: a austeridade. Assim se fez e assim resultou (à custa de colossal desemprego) nos Estados Unidos. Mas a Europa de 2015 não é os Estados Unidos de 2010 – nem nada que se pareça.
Mais uma vez, portanto, a União Europeia vai tentar salvar os ricos (poucos mas muito, muito ricos) fazendo mais pobres e tornando os pobres ainda mais pobres. Que esse é o objetivo exigido por Merkel a Passos Coelho, já é público e notório há muito tempo. Mas… e António Costa? Que caminhos abrirá ao País, com esta nova auto-estrada aberta à austeridade, o PS que vai governar-nos ainda este ano?