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9.Dez.2014

Passos Coelho foi preso à chegada a Lisboa

"Vinha de Berlim, onde tinha ido dar um abraço de reconhecimento à senhora Merkel, que muitos anos antes tinha dito que o achava giro. Ficámos em estado de choque, eu e a Vanessa. Sim, havia casos, toda a gente sabia que havia casos que tinham sido relatados nos jornais."



O silêncio público e o ruído privado

No mesmo dia em que Ana Sá Lopes escreve a crónica sobre o ruído com que se avilta a vida privada de cidadãos sob o pretexto do interesse público, o Presidente da República guarda para si os segredos com que se desgraça a vida pública a bem da protecção de interesses privados.
Ou será ao contrário?
Onde está a linha de separação entre o interesse público e a reserva da vida privada? O que deve proteger-se acima de todos os interesses conflituantes e o que pode ou deve a todo o custo atacar-se de frente?
Quem define essa linha de separação? Onde reside o fundamento da legitimidade para invocar e defender o singular interesse no confronto com os diversificados interesses?
Talvez possamos, seguindo a ideia de Ana Sá Lopes, imaginar como seriam as duas histórias se se invertessem os personagens…


Passos Coelho foi preso à chegada a Lisboa
(Ana Sá Lopes, i online, hoje)
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Vinha de Berlim, onde tinha ido dar um abraço de reconhecimento à senhora Merkel, que muitos anos antes tinha dito que o achava giro. Ficámos em estado de choque, eu e a Vanessa. Sim, havia casos, toda a gente sabia que havia casos que tinham sido relatados nos jornais.

Eu estava a jantar com a Vanessa quando surgiu a notícia de que Passos Coelho tinha sido preso quando chegava a Lisboa, vindo de Berlim, onde tinha ido dar um abraço de reconhecimento à senhora Merkel, que muitos anos antes tinha dito que o achava giro. Merkel nunca foi indiferente a homens de rosto suave e, quando Passos começou a frequentar os corredores de Bruxelas, ainda sem as olheiras fundas dos anos de governo, Merkel encantou-se com o “bonito rapaz”. Ela disse, isto foi escrito, mas agora não sei onde.
Ficámos em estado de choque, eu e a Vanessa. Desatámos a telefonar aos sociais-democratas mais próximos de Passos Coelho, todos eles também em estado de choque. Passos já não era primeiro-ministro, mas o seu fantasma ainda pesava como um bloco de cimento sobre o PSD. Passos era odiado por muita gente que contestou o que o seu governo fez, levando a vida dos portugueses à bancarrota mas, ao mesmo tempo, era amado por muitos que lhe elogiavam a “determinação”. Sim, havia casos, toda a gente sabia que havia casos que tinham sido relatados nos jornais.
Mas não, não era possível que a justiça tivesse preso um ex-primeiro-ministro. Uma avalancha de comentadores condena, no próprio dia, a justiça, o Código do Processo Penal em vigor aprovado pela Assembleia da República e as câmaras de televisão. Não se podia prender um ex--primeiro-ministro. As câmaras de televisão deviam ser constituídas arguidas.
Passei o fim-de-semana a ouvir a Vanessa dizer que o juiz Carlos Alexandre era gordo e que um gordo não podia ter todos os processos às costas. A prisão preventiva era uma anormalidade. Os direitos humanos do ex-primeiro-ministro estavam gravemente ameaçados. E as televisões eram um monstro porque, apesar de darem amplo espaço aos defensores de Pedro Passos Coelho, também estacionavam à porta do tribunal em vez de repetirem a “Casa dos Segredos”.
Não, Passos Coelho não podia estar preso e tudo só poderia ser uma enorme conspiração dos magistrados, que odiavam o homem que cortou o rendimento a todos os funcionários públicos.
– Onde vai parar este país? Ele não pode defender-se! Ele já está a ser julgado na praça pública! Isto é um reality show!!
– Vanessa, acalma-te!
– Acalmo-me o caraças! É preciso julgar esta justiça! Alguém tem de pôr um processo contra estes magistrados todos, principalmente contra o gordo, que é horrível! Já viste aqueles óculos? Isto é um julgamento público, ele já está condenado. Isto é tudo uma enorme encenação!
– Vivemos num Estado de direito.
– Qual Estado de direito!!!! Toda a gente sabe que há uma psicose contra Passos Coelho porque cortou dinheiro às pessoas! Isto é tudo por causa da troika e de o gajo ter andado a cortar reformas! Claro que toda a gente sabe que a Tecnoforma é uma treta! A justiça só quer condená-lo porque sim. Eu acabava imediatamente com a justiça e prendia o gordo!
– Mas se acabavas com a justiça, prendias o gordo onde?
– Numa cela de leões no jardim zoológico!!! Conheço uns gajos capazes de agarrar o gordo e enfiá-lo lá à força! E digo-te já: se eu tivesse a cara da procuradora-geral da República – já viste aquela cara? –, prendia-me a mim própria dentro de casa e nunca mais de lá saía. Este país é um nojo. Ainda por cima, eles são todos feios.

(Isto é uma ficção, é preciso esclarecer?)
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