quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

O tempo do injusto heroismo

O tempo do injusto heroismo

Há notícias que parecem esconder-se dos telejornais por vergonha de si mesmas.
Ou vergonha do tempo, deste tempo de vítimas relevantes. De capitais perdidos,
de poupanças roubadas e comércios arruinado e estádios vazio e fiéis em desespreces.
E pairando sobre tudo, os números - défice e estatística e juros e taxas. Números. Crise.
O País releva-se na crise de números - de pensamento absorvido nos números da crise.
Não há tempo para vítimas que são simples pessoas. O Povo? Isso era o quê?!

Menina de 13 anos salvou os irmãos do fogo mas não conseguiu salvar-se

Nas escadas, a caminho do segundo andar, mesmo horas depois de apagado o incêndio que começou durante a madrugada, o cheiro do fumo espesso entra pelo nariz, trava a respiração e agarra-se ao corpo. Os pés chapinham nos restos da água deixada pelos bombeiros na casa – agora enlameada pelos sapatos dos vizinhos e dos curiosos e misturada com uma ou outra beata. As paredes deste prédio no Bairro do Zambujal, na Amadora, parecem uma mina de carvão. Mas à porta do 2.º esquerdo ainda pendem decorações de Natal em forma de sino, chamuscadas pelo fogo que causou a morte de uma menina de 13 anos. Eram cerca das 3h30 e a criança estava sozinha em casa com mais quatro irmãos menores. Conseguiu retirá-los da habitação, voltou a subir as escadas, mas já só saiu nos braços dos bombeiros.

[Extrato de notícia e foto: 'Público']

Uns vizinhos calam-se, outros dizem o que pensam de forma mais alta para serem ouvidos. “Os meninos estavam sozinhos a toda a hora, vinham para a rua brincar a altas horas, os pais não trabalhavam e andavam sempre por fora durante a noite. Se não fosse isto qualquer dia um caía de uma janela ou acontecia outra tragédia que eu nem sei (…). “Era uma menina lindíssima e muito crescida. Era ela que levava os irmãos à escola e que tratava deles”.