quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

A empreendedorite

A empreendedorite

Por força da idade ou deformação profissional, ando desde há algum tempo especialmente preocupado em ouvir a fundo os dois lados de cada questão que a vida vai colocando. Ando “calado” nas minhas escritas públicas enquanto devoro informação histórica de israelitas e de palestinianos, perco horas sem fim a reler as posições que tomei em abissal discordância com o meu presidente de câmara, leio tudo o que encontro sobre a “festa” brasileira do ‘mundial’ e as obras/reformas por fazer no enorme país do samba – e, é claro, tenho feito um esforço danado em descobrir uma pinga de ética em Passos Coelho e seus pares e, até, um assomo de elegância e sentido de Estado em Cavaco Silva. Ando assim, seduzo a minha própria consciência de que não hei-de morrer de inanição por canseiras tão hercúleas como as que tenho passado na esperança/ilusão de encontrar um lado bom em tudo na vida.
E logo agora, que me deu para isto – qual guerrilheiro a pressentir o estertor diante das suas fúrias – tropeço na notícia de que o ministro Pires de Lima anunciou o projeto (que ao que parece o Governo tem) de introduzir nas escolas a disciplina de 'empreendedorismo'. Logo o Pires de Lima que há ano e meio ou dois anos, nos era lançado aos olhos como um sinal de sensibilidade e bom senso no deserto de estupidez com que os seus correligionários infectavam a já doente consciência social da nossa Pátria amada.
O homem quer ou alinha na “ideia” de substituir, no já sobrecarregado horário lectivo das nossas crianças, o tempo de aprender a amar a Língua Materna, as Ciências da Natureza, o encanto das Artes ou a História Universal - quer substituir esse tempo pela exortação e prática desse desenrasque-se-cada-um-como-puder a que agora chamam "empreendedorismo".
O homem não está doido – é um malévolo idiota.
...e a propósito (citação)
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Este post contém uma total ausência de empreendedorismo
Hoje ouvi o Ministro Pires de Lima na sic notícias a falar sobre os benefícios do empreendedorismo (fiquei sem perceber se isto é recente ou se é uma entrevista antiga mas para o caso não interessa muito). Porque foi a criação de novas empresas e negócios que ajudaram – e ajudam, assumo – Portugal a sair da crise, e que estes são os sinais de retoma da economia portuguesa. Passando à frente desta banalidade, Pires de Lima voltou à carga com a ideia maravilhosa de ter a disciplina de empreendedorismo nas escolas (no básico!). Porque é preciso incutir nos jovens a importância das potencialidades das novas tecnologias e indústrias, é importante estabelecer parceiros de negócio, é importante ensiná-los a construir uma empresa.
Não passa pela cabeça do Pires de Lima que a ambição de alguns jovens pode passar por outras coisas. Se calhar o que o João quer ser é xadrezista. Ou médico. Se calhar a Filipa quer ser cantora ou filósofa ou quer passar o resto da vida a resolver problemas complexos de matemática, e ambos têm zero interesse em construir uma empresa. Ao Pires de Lima nada disto ocorre. Também não lhe ocorre que nos países civilizados toda a gente sabe que estas “skills” que ele considera tão importantes, se aprendem – se é que se aprendem – num curso de três semanas. Não ocorre ao Pires de Lima que o importante é ensinar os jovens a fazer contas, a ler, a pensar, a falar outras línguas. Não lhe ocorre que disciplinas como “empreendedorismo” terão tanto ou mais sucesso como Área de Projecto ou Formação Cívica – ou seja, formas de retirar tempo a discplinas válidas como Português, História, Matemática, Ciências.
Nada disto lhe ocorre. É uma pena.
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Daniela Major, blogue Aventar, 21.jul.2014