"Socialismo" de ideias e asneiras primárias
Diante do pior governo que Portugal conheceu em democracia (ultrapassou mesmo Salazar no roubo do Estado pelos privados, em matérias tão capitais como a Saúde e a Educação) o PS fez, nestes 3 anos, uma oposição de complacência, 'nim' e ziguezagues - que culminou com o aval ao golpe de estado de Julho de 2013, que ressuscitou pelo truque o governo que se tinha suicidado pela podridão. Resultado: o eleitorado, logo que chamado a pronunciar-se, disse claramente que derrubar os estrupícios sim, mas com a alternativa deste PS não.
Diante da preocupação pelo futuro que surgiu dentro do seu partido, Seguro reagiu recusando a reflexão pelo debate das ideias - e acusando de "traição" os seus camaradas que levantaram a questão de o partido mudar o desastroso rumo que ele, Seguro, tão infelizmente traçou. Logo de seguida 'descobriu' que importante, importante mesmo, será os militantes do seu partido auscultarem os não militantes (lá mais para as férias grandes). Isto, depois de ano e meio de enamoramento do Governo e de Cavaco por um PS segurista que se ponha a jeito para um 'compromisso' que mais não é que o derradeiro seguro de vida da putrefacta direita de capitalismo selvagem. Isto é: Seguro deixou-se contagiar pela coqueluche do "que se lixem os socialistas" (más companhias...) e propõe-se decidir o futuro do PS mediante o que disserem os de fora. Só pode estar à espera de que uma multidão de laranjotas deserte do PSD e se declare fervoroso simpatizante socialista por uns dias - ou horas.
Assim decidiu Seguro. Ele próprio e sozinho, ouviram? Foi assim que o comunicou aos jornalistas, por quem mandou o recado: "Habituem-se que isto mudou!". Mas mandou o recado para quem? Para os socialistas, já que só a eles interessa o tal "isto" que mudou no debate interno do PS. Para os socialistas, já que foi decidido autocraticamente pelo ainda lider e sem sequer os consultar. O que não é de estranhar – pois se ele nem quanto à definição da estratégia de defesa do socialismo democrático para o futuro próximo admite ser questionado!
Entretanto, enquanto o lider do PS se obstina em tirar do caminho os seus discordes - sejam os apoiantes de António Costa, sejam os portadores de mais e novas ideias de acção - o Governo e o lodaçal cavaquista podem ir violando a Constituição, arrasando os portugueses, reabilitando o fascismo – o PS não está disponível para tais matérias porque… está a estudar uma forma de se organizar internamente ouvindo os de fora. O PS vai-se envolvendo numa fratricida guerra de esquemas regulamentares – e o País pode esperar. Tudo, a bem do respeitinho que António José Seguro acha ser-lhe devido enquanto líder. Por todos os socialistas, mesmo os que estão desejosos de o por a andar – ou melhor, por todos, para que nenhum deles tenha a oportunidade de o por a andar.
Seguro só não quis perceber duas coisas – e o diabo é que são as duas mais importantes, se não as únicas verdadeiramente importantes: Por um lado, que a trapalhada doméstica não serve para ocultar a inevitabilidade do fim do Secretário Geral – resulta na degradação pública do PS, sobretudo como força credível, aos olhos do eleitorado, para protagonizar uma viragem no desgraçado rumo deste país. Por outro lado, não percebeu que o empobrecimento do PS apanha desvalido o próprio País – e num momento crucial de decisão do Futuro nacional. Ou seja, o último oxigénio que o líder socialista procura para sobreviver – ele próprio e só ele, pessoalmente – vai ser ou está a ser sorvido da energia vital do Partido Socialista e da debilitada saúde da Nação.
A democracia portuguesa não dispensa o Partido Socialista. E o momento do País não consente carreirismos partidários no seio da Oposição. Se não viu isto ainda, António José Seguro, em lugar de dar sentido ao seu esforço dos últimos três anos, deixa-se cegar por ele. E fechando-se na sua cegueira, não vai só perder a liderança do PS – vai relegar-se para uma condição de traidor ao ideal do partido que fez dele alguém e, com isso, atirar-se para o rodapé negro da História da mais séria crise da democracia portuguesa.