Votar: porquê e para quê?
1. Nunca a Democracia imaginou que a abstenção pudesse chegar aos níveis a que chegou. E nenhuma eleição desperta tão pouco interesse nos cidadãos como a dos órgãos europeus. Em cada ciclo eleitoral o número de indiferentes aumenta - e o aumento da diferença atinge o pico quando os cidadãos são chamados a escolher a 'sua' Europa. A chamada "classe política" chegou ao desprezo quase completo dos cidadãos - e a "ideia europeia" já só à classe política parece interessar. E se já de si desinteressa ao eleitor contribuir para os interesses dos profissionais da política - repugna-lhe acorrer aos apelos deles para lhes dar mandato de condução de uma comunidade que mais do que uma ideia vazia se revela cada vez uma força hostil e hedionda. Porque hostil e hedionda é o que a União Europeia se tem afirmado a muitos dos cidadãos de territórios como o de Portugal. Para nós, portugueses, o facto de um nascido em Portugal ter sido o presidente desta Europa nos últimos dez anos não ajuda nada a contrariar aquela desiludida imagem; bem pelo contrário – pelo que ele poderia ter sido e não soube nem quis ser, pelo que ele foi e nunca deveria ter sido e, sobretudo, pelo que ele não fez no caminho que a Europa percorreu para chegar onde chegou e pelo que ele permitiu e ajudou que se fizesse para a União que nasceu como sonho da nossa claridade se tenha transfigurado no mais negro pesadelo da existência da nossa geração e da dos nossos filhos.
2. A Europa Unida, tal como foi projectada pelos seus 'arquitectos', instituída pelos seus fundadores e alicerçada pelos seus iniciadores, foi um trato entre nações com vista à igualdade e à solidariedade de todas elas para tornar perene o modelo definidor da cultura europeia: uma sociedade de liberdade, igualdade e fraternidade entre todos os cidadãos – em que os três valores constituintes e finais se modelam no colectivo por duas ferramentas cruciais: humanismo e justiça. Mas os destinatários de uma tal Europa, talvez inebriados pela utopia de uma sociedade do Homem bom e digno, negligenciaram que a libertação dos cordeiros acicata a voracidade dos lobos – e os 40 anos que decorreram até hoje cumpriram a metáfora bíblica: o anjo satânico Dinheiro foi o filho dilecto (o mais forte e laborioso) do deus Poder. A Política, ciência do bem-estar e progresso dos povos, foi derrotada e esmagada pela Economia, ciência da competitividade e do crescimento dos lucros. Os poderosos detentores do dinheiro encontraram novas tecnologias de derrotar e esmagar os defensores do progresso social – e depois de terem apagado a Política, puseram no lugar da Economia as Finanças, primeiro; e do domínio das finanças passaram à hegemonia do monetarismo. “Inventou-se” a Dívida como modo de criação de moeda – e criação a partir do nada. A Europa ‘engoliu’ este veneno, deixou de ser movida pelo ideal político de Liberdade-Igualdade-Fraternidade dos povos e ficou subjugada ao ideal económico-monetarista de Capital-Especulação-Lucro. ‘Esta’ Europa já nada tem da Europa Unida de Schumann ou Monet ou CEE fundada a 6 países – é outra e, no que importa e é essencial, o contrário daquela do “sonho europeu”.
3. A ‘nova’ Europa tem a obsessão do capital e dos mercados especulativos – e desprezo pela Democracia e as pessoas. É natural que os cidadãos tenham indiferença (se não desprezo ou indignação) pela ‘novidade’ do pesadelo europeu. Votar nos órgãos ‘desta’ Europa é uma inutilidade – qualquer que seja a expressão da vontade dos eleitores, a ela permanecerão indiferentes os ‘donos’ da plutocracia europeia. No caso português, o divórcio entre cidadãos e dirigentes políticos é ainda mais cavado pela total colagem da maioria que detém o poder nacional ao ideário da plutocracia esclavagista: sabe-se, à partida, que, qualquer que seja o grau de reprovação por parte dos eleitores, a desumana tirania dos governantes persistirá, se não for mesmo intensificada – e os argumentos serão os mesmos de sempre: a derrota nas eleições europeias não permite extrapolação para as políticas nacionais, pelo que o Governo mantém legitimidade para prosseguir na sua política de… cega obediência ao capitalismo especulativo imposto pela direcção europeia. Em última análise, o Povo pode censurar a Direcção Europeia pelas políticas que dita ao Governo de Portugal, mas de nada lhe serve censurar o Governo de Portugal por se entregar às políticas da Direcção Europeia. Votar, então, para quê?
4. Na véspera do acto eleitoral, já é consabido e evidente o sentido essencial da vontade dos eleitores europeus em Portugal: ódio pela Direcção Europeia que os odeia, desprezo pelos ‘vendidos’ nacionais que os desprezam. Os números do resultado da coligação governamental nestas eleições poderão variar entre o péssimo e o muito mau, mas nunca irão além disso – porque não é a bancada do Parlamento Europeu que está em causa, é o sufrágio ou a condenação da traição do “sonho europeu” cometida pelos ‘donos’ desta Europa cegamente gananciosa e brutalmente desumana, uma Europa que os portugueses abominam claramente. Por mais que lhe digam o contrário, o eleitor português sabe que aquilo que está em causa, em 2014, é a continuação de austeridade empobrecedora dos povos e garante da usura dos especuladores – ou, falando mais clara e concretamente, a tolerância pelos delegados que a plutocracia europeia colocou na governação dos portugueses ou a reprovação enérgica da desumana brutalidade que os mantém no poder.
Quando, amanhã, as urnas tiverem dado a conhecer a repulsa dos portugueses por esta tragédia que lhes puseram em cima – feita de uma aliança, de traição à Pátria, entre o capitalismo desumano e o carreirismo corrupto – os tiranos pensarão uma verdade e dirão uma mentira: Com verdade, saberão que a derrota que cada um deles apontará ao seu adversário esconde a mais importante derrota que é a dos cidadãos pela ruína europeia; com mentira, simularão que o ódio dos eleitores pelas políticas tirânicas em nada afecta os tiranos. A questão reside em que o silêncio dos tiranizados permitirá o descaramento daquela mentira – ao passo que a expressão clara da sua indignação sublinhará aquela verdade que o pensamento dos embusteiros esconde mas conhece: a da proximidade do seu próprio fim. Por isso é, desta vez, tão importante votar. Por isso é, seguramente, mais importante que nunca.