No domingo de Páscoa, no início da semana de comemoração da mais importante data do Portugal contemporâneo, no final de uma semana de tragédia humana de pescadores por cá e da memória penúltima de um dos maiores vultos da literatura contemporânea, no dealbar de decisões históricas no Báltico e em Bruxelas - a curiosidade das notícias fez-me acreditar que, se ainda temos uma estação de serviço público de televisão, muito haveria para saber. Mas às 13:45 h. o telejornal das 13:00 ainda não tinha esgotado o assunto com que abriu: futebol. Ao que consta, a razão deste totalitarismo é relevante - há hoje festa. Festa do Homem que competiu com o semelhante e se superiorizou a ele, festa do bicho que devorou e não foi devorado, festa do gozo supremo que é o da desfeita alheia. Compreende-se, afinal - seis milhões de portugueses, há anos esmagados no seu dia-a-dia, têm hoje a sua vez de serem também capazes de esmagar. E lançam mão do que podem - esmagam quem podem e com o que podem. À noite, deitar-se-ão felizes pela humilhação do semelhante - e amanhã é outro dia, outro dia de gozar a festa de hoje e começar a pensar na próxima. Porque o Futuro está aí para se construir!
Como diria Hemingway, este país é uma festa!
Para quem não é fanático de fado nem tem promessas para pagar em Fátima, este país parece estender a cada vez mais cidadãos o convite à emigração.
Por mim, fecho as janelas e 'emigro' já, com a família e alguns amigos, para boas conversas em "língua" estrangeira, quiçá com uma pausa de viagem por um longínquo canal de televisão de outro mundo.
Feliz Páscoa (o que significa, mesmo, 'páscoa'?) portugueses!
. À noite .........
OUVE-SE NA RUA uma algazarra de bandeiras e buzinas em tom
de reunião do Conselho de Ministros a mexer nos impostos... .