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Eusébio e a morte

Eusébio e a morte

Em Junho de 1961, estava em alta o patriotismo futebolístico dos meus oito anos, chegou-me, pelo jornal ‘Benfica’, a predição de que uma estrela estava a nascer. O clube da águia tinha conquistado em Berna a Taça dos Campeões Europeus (numa final tremenda em que o Barcelona tinha feito o primeiro golo e os portugueses de Coluna e José Águas viraram a mesa e aguentaram heroicamente um “massacre” dos espanhóis, até ao final de 3-2) e foi a Paris desafiar o Santos de Pelé. Faltavam 20 minutos para o jogo terminar e os brasileiros ganhavam por 4-0, quando mister Bella Guttman pôs em jogo o rapaz negro de 19 anos, para fazer a sua estreia na equipa. Marcou 3 golos ao clube do “rei” Pelé, que no final da partida augurou ao jovem moçambicano um lugar de destaque no futebol mundial. Tornei-me, logo à primeira, fã de Eusébio. Como eu, milhares de outros garotos, jovens e homens portugueses ganharam uma esperança. Logo a seguir ganhou o estatuto de ícone da bola. Até hoje.
Pelo menos duas gerações veneraram Eusébio, ao vivo. Milhares (milhões?) de homens admiraram-no tal como eu, nascidos de simpatizantes do futebol que não eram benfiquistas mas pagavam caro bilhete de peão para se deliciarem com as corridas, as fintas, os remates e os golos de Eusébio. Nenhum outro craque – nem o grande Matateu, que levava ao nível da paixão a simpatia que meu pai e eu tínhamos pelo Belenenses – nenhum outro nos dava tanta garantia de irmos a uma partida de futebol “exigindo” ver a magia dos golos. Di Stefano, lenda do grande rival Real Madrid e contemporâneo de Eusébio, foi um belo símbolo do admirador respeito que o ‘Pantera Negra’ mereceu dos seus adversários, dizendo claro à imprensa que o considerava o melhor jogador de futebol de sempre.
Estão ainda vivos muitos portugueses que, tal como eu, não sabem muito de futebol mas se lembram dos 5-3 na gloriosa final contra o Real Madrid em Amsterdão, dos 5-1 ao mesmo rival espanhol, dos quatro golos na reviravolta contra a Coreia nos quartos-de-final do Mundial de 1966 e das lágrimas no final do jogo seguinte diante da anfitriã Inglaterra de Bobby Charlton (talvez a mais célebre imagem de Eusébio)… e de tantas, tantas outras ocasiões em que o grande goleador celebrava cada golo com a típica corrida-e-salto. E o mais significativo – que é, afinal, o mais importante que tenho eu para dizer – é que para a grande maioria destes admiradores as memórias desses momentos gloriosos do futebol foram guardadas e cultivadas, principalmente, por serem memória de um homem simples, afável para com todos, emotivo ‘padrinho’ de todos os jovens que no último meio século cumpriram um sonho quando chegaram à selecção nacional de futebol, de uma anti-vedeta que irradiava bonomia para quem quer que dele se aproximasse. A imagem de um homem bom não é, claro está, exclusiva de Eusébio – mas são certamente raras a humildade e a ingenuidade com que o já lendário jogador sempre demonstrava amor ao Portugal que o acolheu e correspondia afectuosamente à interpelação de qualquer fã.
Eusébio morreu hoje. Os media e os habituais predadores de protagonismos ou de branqueamentos de outra ordem puseram-se imediatamente em campo, é certo. A futebolite alienada ou alienante e a mórbida lamecha que se dana pelo pendant de negro com cor-de-rosa atiraram-se a um espectáculo de exacerbada tragédia que é pouco edificante (para os próprios, principalmente), também é verdade. Mas tudo isso só põe em maior evidência a incontornável força desta personagem que, fora de qualquer dúvida, foi um dos maiores embaixadores da lusitanidade do século XX, um exemplo de rara beleza de que, se cada vez mais o mito se constrói com engenhosas tecnologias em grandes países, as lendas continuam a ser livres de nascer por singularidade de mérito e num qualquer canto do mundo. Por saberem ou sentirem isso é que tantos portugueses hoje assinam a imortalidade do “Pantera Negra”. Por isso é justa a vénia em que diante da memória de Eusébio se curvam os espíritos serenos.
"Havia nele a máxima tensão
Como um clássico ordenava a própria força
Sabia a contenção e era explosão
Não era só instinto era ciência
Magia e teoria já só prática
Havia nele a arte e a inteligência
Do puro e sua matemática
Buscava o golo mais que golo – só palavra
Abstracção ponto no espaço teorema
Despido do supérfluo rematava
E então não era golo – era poema".
* Manuel Alegre


“Por respeito a Eusébio imponho-me 3 dias sem ver canais televisivos portugueses. É a forma de respeitar o ídolo de milhões de portugueses e o modo de evitar que abutres, com o cadáver ainda insepulto, me entrem dentro de casa. Só precisa de declarar o apreço pelo notável jogador quem duvida de si próprio ou quer aproveitar-se do defunto. O Governo vê esquecidas as patifarias com que contornou o chumbo do OE à convergência de pensões, Cavaco passa pelos pingos da chuva da sua conivência e o País, pesaroso, esquece a morte lenta a que o condenam. Não está em causa o respeito que me merece Eusébio mas não queiram fazer de mim o imbecil que não tem a noção das proporções. Faço ideia da quantidade de figurantes e figurões que aproveitam a missa para aparecerem na TV, os requebros de voz de alguns ministros que disfarçam a emoção que os desempregados lhes não merecem, os gatos pingados que tiram a naftalina ao fato preto para mostrarem a mágoa que parece bem. Um país que só se mobiliza na morte acaba por desistir da vida. Eusébio era demasiado grande para quem se serve dele no exagero das cerimónias fúnebres. Quando um PR emite um simples comunicado na morte do único Nobel da Literatura, a cujo funeral se poupou, e não se coíbe de fazer um longo elogio fúnebre a Eusébio, não é o valor desportivo e humano do atleta que está em causa é a falta de sentido de estado. Uma única frase do PR merece o meu apoio total: «A melhor forma de homenagear Eusébio é seguir o seu exemplo». Espero que Cavaco se dedique ao futebol. Eusébio merecia mais respeito.”
* Carlos Esperança


"Eusébio é um herói justo. Jogou com os joelhos todos lixados, marcou golos com asas, abraçou o Yashin depois de lhe marcar um penálti, calou os brasileiros, virou os coreanos do avesso, chorou nas mãos do Luz Afonso na derrota contra a Inglaterra, driblou, correu, chutou, marcou, ganhou, perdeu, ganhou, ganhou por ele, por nós, para nós. As homenagens foram-lhe todas feitas em vida, em ditadura e em democracia, e todos os melhores textos escritos sobre ele pôde ele próprio lê-los.
(…) foi muitas vezes usado. E abusado. E decaiu. Mas nunca caiu. Nunca caiu do pedestal que lhe fizeram os deuses. O Eusébio não era nosso. Nós é que éramos dele.
* Pedro Santos Guerreiro