Fatinha, 50 anos
Querida Fatinha:
Por momentos, perguntei-me que palavras te diria se soubesse que eram as últimas. Tens – temos os dois – uma imensa vida para viver, no seio das pessoas com quem estamos onde estamos. Mas hoje queria transmitir-te sentimentos com a marca de completude. Porque, adianto, completa é o que penso seres para mim, para o meu eu individual e para o eu que é parte integrante de uma personalidade que só existe no seio de um viver que é colectivo. Vejo-te (vejo-te deste eu individual e vemos-te deste eu colectivo) uma mulher completa – e, mais ainda, uma pessoa de completude. Através de um atributo, global ou globalizador, que adiante nomearei – se é que venha a ser preciso…
Deveria dizer-te uma palavra completa. Por isso esta vontade de ta dizer como se fosse a última – de ta dizer última. Porque só no final de todas as experiências tidas, possíveis, tentadas ou frustradas conseguimos encontrar a palavra completa.
E haveria de ser hoje. Porque se faz hoje uma data que não é comum, porque não é uma idade qualquer a que fazes aqui. Nem para ti nem para nós, estes que somos outra (ou a mesma) parte de ti. Hoje completa-se e começa tudo – ou há um tudo que começa agora, ainda que simbolicamente… ou precisamente por ser simbólico (o que seria a Vida se não ancorada nos símbolos que a definem, dando-lhe sentido e alento?). Há um tudo que hoje começa – e que começa sem tomar o lugar de algo que termine. O tudo que somos, o tudo que és, só é tudo por causa do que hoje se completa e do que hoje nasce ou continua nascendo. É esse o milagre da vida humana. É essa a magia das vidas humanas como a tua.
O sentimento – e, mais que ele, o depoimento – que te presto hoje é o de dizer-te que estás na completude. Atingiste o vértice das eras que fazem uma pessoa completa. Que a Vida faz-se de eras, afianço-te. E se são mais que idades as eras é porque por elas se acumulam as idades e por elas se soma a vida. Aos vinte anos completamos a nossa ‘pré-história’, transfigurando essa era da Ingenuidade por introduzirmos-lhe a Paixão. E vivemos ingenuamente apaixonados até que aos trinta conquistamos mais um passo – acedendo à era da Realização. Mostra-nos então a Vida que nem todos se realizam algum dia, mas alguns podem achar-se realizados na brilhante era dos trinta – e isso rasga-nos as vistas para descobrirmos que, do mesmo ou semelhante modo, se pode aos quarenta aspirar á Sabedoria, essa que não tem idade mas aos quarenta é alcançável pelos raros a quem toca em vida.
Vale muito uma vida que somou a Ingenuidade, a ingénua Paixão, a apaixonada Realização, a realizada Sabedoria. Vale muito a quem a vive – mas vale muito mais, mesmo para o seu autor, quando dela se valeram outras vidas. E a essa soma perfeita só a Vida abre portas (quando acontece essa singularidade que é abri-las de verdade) quando proporciona que o acumulado de todas essas eras encontre, a reuni-las e unifica-las, a Serenidade. Eis-te – digo a ti, porque tu sim – nos cinquenta anos! Aí os tens. Os teus, verdadeiros e completos.
Vale muito uma vida… quando dela se valeram outras vidas. Por isso te digo, a ti e hoje, as palavras que já te ficaram ditas. Por isso a ti, a quem já disse eu todas as palavras que a Vida me ensinou a dizer, quantas vezes as palavras que poderia dizer a toda a gente mas não disse a mais ninguém, até palavras que a mais ninguém disse. Por isso a ti, de quem aprendi muitas delas e seguramente o modo de chegar às mais importantes delas. Por isso a ti, com quem descobri eu (e descobriram os que mais fazem este meu eu) a iluminação ou a possibilidade de achar essas palavras, as palavras que importam, as palavras que nos fazem vivos.
Vale muito essa vida de que se valeram outras vidas. Vale muito, completa. E vale muito, vivida. Vale a pena vivê-la. Nesse ponto a que tu chegaste.
Continua-a assim. Usufruindo esta imensa e intensa Felicidade que nos dás.

