quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

O guião

O guião

" - Meus caros, então é assim (tomem nota, se fazem favor): Primeiro tu, Pedro. A tua fala é a mais simples, nada que enganar. Dizes o mesmo de sempre - ou seja, nada - com a mesma certeza de que ninguém liga e todos sabem que te desdizes tu ou te desdizem os factos, já amanhã ou daqui a bocado! A bancarrota e o estado a que isto chegou e o Sócrates, e tal"
" - Ó Zé Manel...!"
" - Sem comentários, é o que está decidido pelos 'mercados' (ih ih ih!). Bom... o seguinte. Paulo: tu, idem idem, já sabes. Irrevogavelmente ao lado dos fracos, e tal. E os mercados e tal. E recortas uns chavões da Declaração Universal dos Direitos do Homem, e tal, a Pátria e Deus e a Família e tal, e os mercados e tal. Ah...! e esticas essa merda para umas 100 páginas, mais dúzia menos dúzia e tal, letra bold a 25 px, parágrafo de espaço quádruplo, página A5 com margens duplas e tal. Ah...! e lês tudo, depois de anunciares que às dez é de vez, e tal. E falas na primeira pessoa, como sabes, e tal"
" - Ó Zé Manel...!"
" - Continuemos. Maria Luís: bem... espera... tu... bem, tu ficas lá mais para o fim, quando no auditório já só restarem os nossos".
" - Ó Zé Manel...!"
" - Siga. Agora a rapaziada do coro. Tudo a dizer que isto agora está a melhorar, que o pior já passou, que o diabo foi como a gente encontrou isto, que há sinais, que toda a gente vê os sinais (ih ih ih!), avança ali o das mines e grita que é 'milagre!', o troglodita da tabuada amanda com uns rankings do negócio dos canudos, e tal. Mas todos à uma que isto vai melhorar - que ESTÁ a melhorar - e tal. O coro faz um ralentando e avança o Camilo com o falsete da ordem, e tal. E bis com os bons sinais, e tal"
" - Ó ZÉ MANEEEEEL !!! "
" - Caluda! Olhem os mercados! Bem... no intervalo entra ali pela direita a Rebelo Pinto e a gente come-lhe os miolos e continuamos em jejum natural para podemos ir à hóstia do Policarpo e tal."
" - Ó Zé Manelinho... !"
" - O que é que foi...? "
" - Ó Zezinho Manelinho... e o padrinho dos cidadões? Nada?! "
" - Nada. E tal. Quem nada não se afoga, e tal. Esse mando-o avançar no fim de tudo consumado, a dizer que ele é que tinha avisado e tal. No fim, quando a malta já não conseguir rir-se... ou quando já não houver malta viva."
" - Ó Zezinho-zinho Manelinho-inho-zinho... e tu, afilhado dos padrinhos do padrinho..."
" - A mim deixem-me cá, que eu cá sei! Eu tomo conta do Tribunal Constitucional… que não falo dele e tal, que não o ameaço mas ou eles dormem ou acabo-lhes com a raça e tal, os mercados estão-se marimbando para leis e democracias e tal, mas dá mais gozo manter a malta na ilusão. E tal".