quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

Sessenta

Sinto que se completa hoje uma parte – uma boa parte – dos meus 60 anos.
Parabéns, Zeca!

Faz hoje 60 anos, a luz de uma parcela de África teve um sol diferente.
A mim, chegou-me meia dúzia de anos mais tarde, vinda de um corpo do tamanho do de Mozart em cima de um banco de escola e trazida pelo seu próprio brilho maior, a melodia, entoada na língua com que um filho adoptivo a devolvia do berço da Humanidade: “Oh, mon papa!”. Eu nem imaginava com que harmonia haviam de multiplicar-se na minha vida, inteira, os imensos tons arranjados sob a inspiração daquela linguagem musical. Só hoje começo a sabê-la na sua plenitude.
Não há, na tinta de uma caneta nem na memória dos discos rígidos, capacidade para contar este caminho de mais de meio século. Impossível descrever a Felicidade que do Destino se recebe por construção colectiva, tão difícil como transmitir o sabor de um mar desbravado em lágrimas de água doce. Como em tudo na Vida, as mais eloquentes memórias guarda-as o silêncio na intimidade do pensamento. Deixemo-las onde estão, para não lhes desdourar-mos a tinta com que foram escritas.


Noite de 18 de Junho de 1991. O sobressalto maior entrou-me no âmago do lar, feito susto da saúde filial atacada. Pegámos no telefone e num gesto – automático – chamámos o Zeca e a sua doce Cruz. E foi ele quem levou ao colo o nosso filho, hospital adentro. Eram cinco da manhã. Normalizou-se a acalmia e, no mesmo sereno silêncio de sempre, regressámos cada um a sua casa.
Esta narrativa de uma breve hora de minutos longos resume tudo o que as palavras nunca chegarão para contar. Resumem a História de uma vida de dois homens que nunca apertaram a mão para se cumprimentarem – porque não é de formalidade que se faz a linguagem com que comunicam, porque nunca houve reencontro após a última despedida, porque não há despedida de quem está sempre connosco.
Talvez tenhamos aprendido tanto por termos começado por aprender, em conjunto, a profunda linguagem do silêncio. Nos mil sonhos a dois – que foram quase tantos como as realizações que deles se construíram – era essa a linguagem. Ele sonhava e o meu pensamento gritava para dentro de si mesmo: “Fixe!”. Eu sonhava e os olhos dele brilhavam para dentro do seu íntimo pensamento: “Topo!”.
Foi assim esta dupla vida de 60 anos. É assim este homem a quem nunca precisei de dar fisicamente um aperto de mão. Este homem de quem nunca recebi um abraço – quando a ocasião era de todos me abraçarem, ele agarrava-me pela cintura e levantava-me no ar. Com aquele corpo do tamanho da alma que o mantém de pé. Com aquela força do tamanho do carácter que o coloca acima dos outros.