quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

Os cacheiros

Em comunicação, designa-se cacha o material informativo que se publica em primeira mão
– como truque que utiliza a novidade/antecipação do que vai acontecer,
para ganhar em surpresa do leitor e em credibilidade do comunicador.
(corruptela criada pelo aportuguesamento de “cache”, do francês “cacher”, esconder).
Os brasileiros chama-lhe “furo” e os anglo-saxónicos “scoop”

1. O primeiro cacheiro
Há 30 anos, Alvin Tofler advertia na sua trilogia ‘O Choque do Futuro’ / ‘A Terceira Vaga’ / Os Novos Poderes’, para a revolução que os padrões de governação dos povos e da própria vida destes estavam a começar a sofrer pela via da comunicação e daquilo a que poderemos chamar “marketing político”. Talvez tenha tido, ao escrever tais advertências, uma inspiração visionária – ou, quem sabe?, talvez tenha ele próprio deixado preciosas dicas à propaganda política e às técnicas de manipulação das massas. Mas duvido que tenha tido a percepção do ponto a que chegariam, em tão poucos anos, a simbiose do poder dos media com as técnicas de comunicação do poder – e, claro está, da permuta entre ambos e o mundo do dinheiro. Isto, mesmo não sendo coisa nova a capacidade de domínio do mundo pelo triângulo Finanças-Política-Comunicação e pelos lucros que a promiscuidade proporciona aos três lados do polígono.
Com o avanço das sociedades de dirigentes incompetentes, incultos e amorais, o poder do rigor e do exemplo cederam já todo o terreno em que campeavam. Cederam-no às “novas artes” (que não são novas e muito menos são uma arte) de criar imagem ou aparência, fabricar opiniões ou preconceitos, adiantar-se à livre observação dos factos pelo público e substituir-se à serena reflexão da vida pelos cidadãos. O sufrágio eleitoral serve, mais do que nunca, de pretexto para a invocação de “legitimidades” até ao absurdo (absurdo que é, afinal, caçar o voto de maiorias para depois escravizar ou aniquilar essas mesmas maiorias… em nome delas próprias!) – e tanto basta para que aquilo que é importante para quem pretende o poder, o domínio ou a tirania seja, nada mais nada menos que a técnica de convencer as massas que no momento asado depositam o voto e conferem a necessária “legitimidade” aos ditadores. Podem não passar de tiranetes, néscios ou cinzentos burgessos aqueles que guerreiam pelo poder – que para ter o mundo nas mãos basta-lhes disporem de meios para convencer seduzindo, obter votos manipulando e “legitimarem-se” hegemonizando.
Entre nós, a técnica de utilização de um testa-de-ferro que prepara terreno e abre caminho à supremacia manipuladora de um partido político – uma espécie de sabichão de altos créditos – foi magistralmente inventada por Marcelo Rebelo de Sousa. Conquistou a liderança de um partido grande, fracassou rotundamente na condução dele, mas descobriu a maneira de prestar aos da sua cor melhores serviços que ninguém (e, por via disso, ter também maior prestígio e poder pessoal que todos os que passam pela direcção do partido, mais ou menos efemeramente) entronizando-se num papel que agrega o de jornalista sem necessidade de carteira profissional e o de político sem submissão a congressos. Tornou-se o exemplo paradigmático do comentador político, o mais disfarçado e eficiente dos fazedores de opinião e mestres de propaganda.

2. O cacheiro oficioso
O sucesso do Professor Marcelo – académico com a cultura, a fluência de raciocínio e facilidade de verve que aos políticos de hoje escapa a léguas de vista – gerou a tentação. E daí a aparecerem candidatos a comentadores em tudo o que é vazadouro dos partidos políticos foi um passo de anão. E aí os temos, os falhados, escorraçados ou simplesmente inaptos para todo o serviço… todos a proferir comentário. Quem quiser resultados dê-lhes um lugar visível – eles retribuirão com as mais ajeitadas utilidades.

Se a semana começava na TVI ao domingo, com a prestação do primeiro cacheiro, agora a SIC mete-nos pelos olhos o cacheiro oficioso ao sábado. A desproporcionada insuficiência dos recursos - que no primeiro são bem outros - levou o oficioso a descachar-se em antecipação.
A cacha aparece como inconfidência, adornada com parangonas de revelação. O cacheiro oficioso presta ao Governo um serviço de entrega-antes-da-hora, anunciando o que aí vem - oficiosamente, claro. Serviço de utilidade redobrada: ele põe a asneira em circulação e o Primeiro-Ministro só precisa de vir mais tarde - curar a ressaca do experimentalismo. Método linear: O partido engendra uma "nova medida" para o Governo se safar, o cacheiro vem dizer ao povão que sabe "de fonte segura...", e o Governo só tem que aguardar o impacte da pancada na opinião pública. Nada custa, a final, vir o PM dizer e jurar que não passa tudo de um boato ou uma má comunicação.
E assim se vai de experiência em experiência.
E pronto!
Ou não...
3. O ouriço cacheiro
O que mais custou foi habituarmo-nos a vermos os governos passar… nas televisões. Governar para a comunicação – e pela comunicação – parece o último requinte das técnicas de domínio dos povos pelo convencimento e a sedução, signifique isso ou não governar pela mentira. Se à mulher de César não bastava ser, aos pequenos césares de hoje já basta parecer. Os últimos meses trouxeram isso aos portugueses com mais do que evidência – com evidência explícita e comummente aceita.
No Governo da República há actualmente um enorme número de incultos, ignorantes, inexperientes. Mas há também, sabe-se desde o início, quem tenha cultura, conhecimentos e experiência. Trata-se de Paulo Portas, claro. Logo que o Governo de Passos Coelho tomou posse, Portas deixou apenas uma dúvida aos portugueses: até onde iria.
Não até onde iria a sua argúcia (astúcia?) na partilha dos lugares do poder foi dúvida efémera, se é que chegou a ser dúvida; mas até onde o CDS de Portas suportaria as catástrofes que se sabiam iam suceder-se mês após mês de inépcia de Passos, Gaspar e companhia – sem esquecer que na companhia estava no início (e de que maneira) alguém como Miguel Relvas.
Até onde ser a muleta de tanta coxeira – essa era/é a dúvida. Mas não só para os analistas e cidadãos atentos de fora. Também para o próprio Paulo Portas, que à vista desarmada enxergamos com incómodos políticos e intelectuais a preencherem boa parte dos dias em que interrompe as suas viagens para dar uma vista de olhos ao País.
Mas para Paulo Portas essa dúvida – até onde aguentar – pressupõe uma outra: como estar no meio das vantagens do poder sem sofrer a contaminação de parceiros tão desastradamente inábeis e perversos, ainda por cima amarrados pelo pescoço a um personagem que se tornou num verdadeiro estrupício enquanto Presidente da República…
A resolução de tal dúvida podia Portas consegui-la por via dura ou pela via mais fácil. Optou pela última: estar dentro do cenário do deslumbrante poder e fora do cenário da calamitosa governação. Estar dentro e fora – nada mais elementar.
Por essa via chegou esta tarde Paulo Portas às câmaras de televisão. Ele (não o Governo de que é Ministro de Estado, não o partido de que é presidente, não o compromisso da sua ideologia com o programa eleitoralmente sufragado) ELE declarou-se contrariado pela desgraçada governação, opositor das desgraçadas asneiradas de Cavaco, Coelho e Gaspar, salvador dos portugueses diante da inevitável maior desgraça que estaria para vir não fosse a consciência dele, Paulo Portas.
No meio da política presidida pela imagem e pela sedução do eleitorado, chegou à maturidade um espécime que se reveste de uma carapaça que é contundente para com os adversários e protectora da sua própria pele. No meio dos cacheiros da política, aí temos o que podemos designar cacheiro-ouriço. Ou ao contrário.