quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz
Assim, sim
crónica de um jogo de futebol diferente (11/05/2013)

De vez em quando, o país pára, para “o jogo do ano”. Calhou ontem. Enquanto iam a caminho de Fátima outras résteas de esperança ou coisa que a valha. Umas e outras à espera de que as promessas se cumpram – ao menos estas.
Hora e meia “intensa”. Dois exércitos com treino e disciplina – e armas leais. Ao menos estas.
Dois generais em foco. Porque no início dos tempos se dizia de um que era general sem exército e do outro que tinha um exército sem general. Porque o primeiro teve soldados que só na última semana empataram a marcha – e o outro só à beira do fim teve soldados com a mira na glória. Dois generais com medo – aquele medo saudável, a que a sabedoria popular chama ‘respeito’. Que o respeito fosse, então o exemplo.
E foi. Os que tinham que avançar, tentavam-no. Os que tinham que ser firmes, estavam-no. E cada um se cumpria quanto a competência do outro o consentia. E igualaram-se as duas frentes no cumprimento. E foi o que tinha de ser – porque a batalha foi jogo e o jogo foi desporto e o desporto foi o que a vida é: inspiração, transpiração e a sorte que faz das outras duas uma festa. E para que a festa fosse pura, intensa, verdadeira, foi até ao fim. Com um a ganhar e outro a perder. O que tinha de ser, pois.
No final, ganhou aquele que nada mais tinha para ganhar. Perdeu aquele que mais podia perder. Em dois medos que foram o mesmo sofrimento. E um medo vencido – o de que o juiz, passível de errar tanto como qualquer dos outros, errou o que é esperado de qualquer um, mas não chamou a si a condenação nem a clemência. E o exemplo começou ao não se falar do julgamento. E o exemplar foi nenhum dos pleiteantes chamar os seus a apontarem o dedo à justiça.
E o mais belo, o que foi mais significativo, o mais importante exemplo foi dado pelos dois generais sem medo. O derrotado disse “Custa  perder” e felicitou o vencedor. O vencedor disse “Fui mais feliz” e valorizou a qualidade do derrotado. Como no exemplo clássico, foi ‘Glória aos Vencedores, Honra aos Vencidos’. Faz sentido chamar ‘clássico’ a um jogo destes? Assim, sim.
Talvez cansados do tempo em que os comandantes não estão à altura das suas hostes e as incitam à vergonha, os generais disseram aos seus apaniguados que a festa só com lealdade, humildade e respeito é que é festa. A bem de que dentro de uns poucos dias, olhando o centro da Europa, estejam em festa os portugueses. Todos.