Toda a vida houve – não são de agora – as críticas de carácter dirigidas às pessoas públicas e à ética das suas condutas, ou principalmente à falta dela. É de há muito, é de sempre, a indignação do cidadão comum diante do contraste entre a pretensão ou arrogância com que os políticos opinam e moralizam sobre tudo, de um lado, e o que a observação da vida que levam no dia-a-dia, de outro.
A excessiva atenção ao carácter dos políticos e, até, à vida privada que mais ou menos se lhes conhece foi objecto de uma chamada de atenção de Ricardo Costa, há umas semanas no ‘Expresso’ – precisamente pela manobra de diversão que tal atenção acaba por traduzir; manobra, nas mais das vezes, iniciada e incentivada pelos próprios políticos. Li o artigo e achei-o pertinente.
Mas não há dúvida de que aquele contraste entre o que os políticos dizem e o que praticam (e, pior, entre as regras morais, o rigor e o sacrifício que exigem dos outros e o regabofe a que entretanto se dedicam ou de que beneficiam) não deixa de ser reprovável, não deixa de indignar, não deixa, quantas vezes de ser chocante. Por isso acho compreensível que, sobretudo em tempos de enorme sacrifício e exigência para o comum do cidadão, aumente este olhar atento à desfaçatez com que aqueles que dizem servir a causa pública se servem dela.
Isso é, afinal, o que explica também a autêntica avalanche de observações desta índole que as redes sociais exibem ultimamente e a propósito de um cada vez maior número de pessoas públicas.
Casos como o que agora me chegou pela partilha em rede – e que, apenas para ficar com registo do fenómeno (sem curar da veracidade ou fidedignidade da ‘notícia’ ou sequer da identidade do seu suposto autor) aproveito para coleccionar.
O texto é divulgado com o título "Deputada de gingeira".
«Acabado de chegar a casa, ligo a televisão e já só apanho a parte final da declaração do presidente do Tribunal Constitucional e, três cigarros depois, as declarações dos representantes dos Partidos. A cerca de 5850 quilómetros de Lisboa, acaba por me entrar em casa uma deputada da república, a proclamar a sua perplexidade e a zurzir, forte e feio, nos juízes do Tribunal. Dei por mim a pensar que esta deputada, Teresa Leal Coelho de seu nome, deputada da República por escolha pessoal do primeiro-ministro, deverá ter sido escolhida para fazer esta declaração pela experiência que tem de comentar decisões dos Tribunais portugueses.
«Quando foi despedida de administradora do Centro Cultural de Belém, o então presidente, Fraústo da Silva, explicou que a senhora se teria enrolado numa série de trapalhadas, que envolviam o favorecimento de amigos e o abuso de funções e do nome da instituição. Tudo acabou em Tribunal, com a futura deputada condenada duas vezes. A propósito da sua dupla condenação, a futura deputada declarou, na altura, que as sentenças continham vícios de “obscuridade” e “falta de transparência”. Juro que é verdade. Mas explicou também que só não voltou a recorrer porque deixou passar os prazos legais para o fazer. Sendo profissionalmente advogada é, no mínimo, estranho e absurdo.
«Um país que tem um presidente em Belém a fazer lembrar, cada vez mais, Américo Tomás, em versão embalsamada, a quem não falta, inclusivamente, a sua Gertrudes, e que elege para deputados da República gente desta natureza (e faço a justiça de concordar que os/as há em todos os partidos) deve, no mínimo, parar para pensar, mas não auguro nada de bom para o futuro.
«PS: Atacar uma senhora, não é bonito. Penitencio-me por isso. Tenho, no entanto, uma atenuante. Esta senhora também foi administradora da SAD do Benfica, sob a presidência de Vale e Azevedo. Fez, portanto, parte da pandilha que ia destruindo o meu Clube. E isso, perdoem-me, não posso deixar passar e nunca lhe perdoarei».