É possível que NADA no 'Magalhães' seja português, para além do nome e
de um outro elemento específico do “produto”. É possível. Será, portanto,
tudo estrangeiro, menos o nome e o tal outro elemento componente da marca.
Mas eu, enquanto português, ficaria muito satisfeito (e a lucrar) se os mais de
1 milhão de unidades desse 'brinquedo' que foram vendidos ao estrangeiro
pudessem passar para o dobro. Mesmo que só nos dê orgulho a criação
portuguesa do nome – e do tal outro elemento da marca, que se chama IDEIA.
Se os homens de Passos Coelho conseguirem algo parecido com isso que os
de Sócrates fizeram, terei o maior gosto em bater palmas. Começo é a estar farto de esperar...
O 'dossiê' Magalhães tem várias vertentes:
1 - A IDEIA de criar um produto atrativo no estrangeiro. Ótima, a meu ver.
2 - O INSTRUMENTO de iniciação das crianças à informática. Acho uma excelente iniciativa e conheço muito bons resultados conseguidos (vivo no Interior com população info-excluída que perdia no concurso a empregos e na cultura, sendo que para muitas famílias foi a única possibilidade de proporcionarem um pc aos filhos, que por sua vez introduziram os pais nisto que hoje em dia é ponto obrigatório para sair do anafabetismo). Houve oportunismos, mas não mais do que os há em tudo o que se oferece a um povo cheio de lusitanos mas também de tugas...
3 - O PROCESSO DE CONTRATAÇÃO do produtor. Discutível, muito suspeito, muito nebuloso. Mas, à boa maneira tuga, as empresas prejudicadas não agiram judicialmente (uma, estrangeira, disse mesmo que tinha perdido o concurso, mas justamente) e foram os políticos - sempre eles - que deixaram correr o processo de concurso, para DEPOIS virem arguir suspeição. Eu tenho as minhas dúvidas da clareza do processo - mas são só dúvidas.
4 - A PROMOÇÃO da marca no estrangeiro. Muito boa, a meu ver - sobretudo porque todo a máquina do ICEP e do Governo fez o que um bom promotor de marketing deve fazer. O resultado foi um enorme sucesso (nos países em que o podia ser, como Angola, Venezuela, Brasil) que deu lugar a criação de postos de trabalho, a entrada de divisas e a bons negócios com o estrangeiro - como foi o caso da Venezuela, onde as indústrias de panificação e de medicamentos portuguesas ganharam papel de grande relevo e onde se abriu um interessante dossiê para o comércio de petróleo e a indústria naval portuguesa.
5 - A POLÍTICA. Aqui é que a porca torceu o rabo... Ideia de Sócrates, logo, coisa ruim. E, tal como aconteceu com o mercado do crédito, assistimos à deplorável vergonha de vermos os estrangeiros entusiasmados com Portugal... até ao momento em que liam na imprensa a Oposição portuguesa clamar que isto era tudo uma indecência e um regabofe. Com tal propaganda, claro que acabou mesmo por ser.
Depois, a então Oposição apeou Sócrates do poder - e houve duas consequências: a) não se falou mais no processo criativo do Magalhães; b) Os novos governantes continuaram a vender a ideia (a tal que era muito má) no estrangeiro. E, caladinhos continuam. Caladinhos, como 'bons' portugueses...