No que chamam “redes sociais” e que para as massas se reduz ao Facebook entretém-se hoje meio mundo. Após a explosão que Farmville e jogos quejandos possibilitaram ao astronómico negócio que o jovem Mark Zuckerberg parece ter começado por brincadeira, os políticos que levam a sua propaganda a todo o mundo e de modo ‘gratuito’ estão cada vez menos sós na rede. Um bilião de utilizadores é a última estimativa.
No Facebook, vemos ‘máximas’ de “amor é amar”, “não me incomodam os que me detestam”, ou “eu não gosto de falar de mim” sucederem-se a fotografias de cãezinhos có-có, produtos de beleza, adorações de celebridades e cumprimentos de “olá, todos, eu estou aqui” – tudo à razão de 3600 segundos por minuto.
Mas ali conhecemos pessoas, opiniões, pensamentos, propostas e protestos que são necessários – cada vez mais necessários. Sem os quais ignoraríamos a nossa própria pobreza de pessoas com horizontes de cultura e conhecimento infinitamente limitados. Por isso se concebe tão dificilmente, hoje em dia, que alguém com mais do que ‘letras grossas’ possa viver ignorando o Facebook. É o mesmo que ignorar o mundo – ou muito próximo disso.
O artigo que cito, na íntegra (coluna ao lado) é um dos bons exemplos que tenho testemunhado na atenta leitura do mural do Fb que diariamente faço.
O autor, P. Albuquerque Dias, que creio ser um jovem economista, partilha quotidianamente as suas preocupações e reflexões na rede social.
Dá gosto constatar a honestidade intelectual que serve tão clarividentes análises.
Dá gosto constatar a honestidade intelectual que serve tão clarividentes análises.
" Um simples exercício de triangulação das características dos estados sociais vigentes nos países capitalistas coloca a descoberto o equívoco político que consiste no despudorado ataque ao estado social português. A classificação mais correntemente utilizada para os estados sociais do capitalismo destaca, essencialmente, três tipos de estado social: o nórdico ou escandinavo, o conservador ou continental e o liberal ou minimal anglo-saxónico…
O nórdico é universalista, protege todos os cidadãos contra os infortúnios dos mercados, financia-se por impostos, é caro do ponto de vista público e proporciona excelentes resultados do ponto de vista da justiça social. O conservador baseia-se na hierarquia social e protege os cidadãos de acordo com os seus descontos sobre remunerações e salários, é mais barato do que o nórdico do ponto de vista público e resulta na segmentação vertical da sociedade original. O liberal baseia-se na capacidade que o próprio indivíduo tem de investir em esquemas de seguros ou poupança, precavendo-se, deste modo, de eventuais situações hostis que venham a ocorrer, são os mais baratos do ponto de vista público e geram maiores níveis de exclusão social. Isto são estilizações, claro: são traços gerais expurgados do pormenor contextual e histórico de cada país…No quadro acima delineado, posicionaríamos o estado social português numa bagunça dos três, consoante o vértice do olhar. Aproxima-se mais do escandinavo no que respeita ao seu peso no erário público, aproxima-se mais do continental no que respeita à sua lógica de funcionamento e aproxima-se mais do liberal no que respeita aos seus resultados. Desta triangulação concluímos que para os níveis de despesa actual com o estado social poder-se-iam proporcionar os níveis de inclusão social dos países nórdicos, pois, para os resultados que se atingem hoje, bastariam os gastos marginais dos estados sociais liberais…
Da triangulação efectuada conclui-se que o cumprimento custo-eficácia da ideia central que regula o estado social português deveria ocasionar mais inclusão social e menos despesa relativa. O hiato que decorre desta triangulação apenas se explica pela corrupção, pela incompetência gestiva e pelo pagamento de reformas e pensões que valem por 1000 pensões: pois não é aí que se corta - corta-se nos subsídios de desemprego, de funeral, no apoio à família, na bonificação de juros etc. etc. etc.
O que tem sido posto em causa nesta depressão económica e social tem sido, sempre, o estado social; porém, a causa desta depressão económica e social nunca foi o estado social… "
