Há o falar e o falar. E os palpites eram de que aconteceria hoje,
para exortar à paz social, à produtividade da Nação, ao espírito
de boa compreensão pelo 'público' utente dos serviços máximos...
Mas avançou D. Policarpo - e logo suspeitei que ainda não era desta...
Ouvimos dizer, há dias, que Cavaco finalmente falou. Para dizer que não cederá a pressões a que fale da desgraça que por aí vai.
Isto é: interrompeu o silêncio – para dizer que vai continuar em silêncio.
Continua fiel à tese que, já velho demais para se dedicar ao triplo salto em que notabilizou noutra era, defendeu quando fez o triplo lançamento do livro “Uma Crise Anunciada”, de Durão Barroso para a vida boa e dele próprio para a presidência da República (outra maneira de dizer da sorte de Durão). Segundo essa tese, o professor entende que só há duas influências eficazes para fazerem um governo mudar de políticas: a dos empresários e dos jornalistas – e, por isso, são eles quem deve ser pressionado para falar.
Fiel ao seu próprio pensamento de homo silentiosus. Fiel, além disso, à boa recomendação popular: “fica calado, que quando abres a boca, ou entra mosca ou sai asneira”. Ou será que nem por isso?
No mesmo livro – lançado quando estava no governo o PS – o homem que hoje não fala para ser o homem de quem que se não fala escreveu. Escreveu que não podia ficar calado. Por dever de consciência e de sapiência tinha de falar. E não quis saber da recomendação popular. E abriu a boca. Toda.
Estavam então em debate o aumento de impostos e os cortes na dívida pública. E o senhor professor, do alto da sua cátedra, clamou:
“O que terão pensado os meus alunos da Universidade ao ouvirem o primeiro-ministro e o ministro das Finanças afirmarem perante as câmaras de televisão precisamente o contrário do que lhes ensinei e que leram nos livros de macroeconomia e de finanças públicas? Porque estamos em época de exames, entendi que era meu dever não ficar calado. O argumento é falso”
(repare-se no delicioso pormenor dos exames).
E o senhor professor, mais alto, ditou:
Quando o crescimento económico de um país abranda, a política correcta é precisamente deixar que a receita fiscal baixe automaticamente e não cortar na despesa pública. (...) Se quando um país é atingido por uma crise económica se cortasse a despesa pública, a crise ainda se agravava mais. É por isso que não se deve fazê-lo”.
Custa-nos compreender o senhor professor?
Cuidado, que logo nos denunciam como demagogos, oportunistas, populistas e irresponsáveis!
Cuidado, que logo nos denunciam como demagogos, oportunistas, populistas e irresponsáveis!
Quando não gostava do governo, o senhor professor viu a bestial calinada de se combater a crise com aumento de impostos e cortes na despesa. E, por Deus!, era grave não denunciar tal asneira. Diante dos seus alunos.
O irónico (e luminosamente esclarecedor) é que essa é precisamente a razão porque agora fica calado, sempre calado, obstinadamente calado, num silêncio ensurdecedor – diante dos portugueses.
O irónico (e luminosamente esclarecedor) é que essa é precisamente a razão porque agora fica calado, sempre calado, obstinadamente calado, num silêncio ensurdecedor – diante dos portugueses.
Será que nós, portugueses, não percebemos que o alerta tem as suas questões de oportunidade? Há a importância da lição de um professor, e há a irrelevância da magistratura de um presidente da República.
Porque é que nós não enxergamos que o senhor professor faz a clara e perfeita distinção entre coisas sérias e coisas de somenos?!
Há assuntos sérios, em que um homem não pode calar-se – e assuntos de somenos em que não vale a pena falar. Questão de hierarquização de valor dos assuntos. Pedagogia é Pedagogia - e Democracia é Democracia.
Para o catedrático de Boliqueime, Economia para alunos é coisa séria, nada desses "trocos" de Cidadania para os portugueses. Presidente da República? Que é isso, para um professor de Economia?
A nobre Economia manda que se fale. Coisa séria. Nada dessa estória de Democracia, que diabo!
Há assuntos sérios, em que um homem não pode calar-se – e assuntos de somenos em que não vale a pena falar. Questão de hierarquização de valor dos assuntos. Pedagogia é Pedagogia - e Democracia é Democracia.
Para o catedrático de Boliqueime, Economia para alunos é coisa séria, nada desses "trocos" de Cidadania para os portugueses. Presidente da República? Que é isso, para um professor de Economia?
A nobre Economia manda que se fale. Coisa séria. Nada dessa estória de Democracia, que diabo!
