Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar contra a Fome
O banco de Isabel Xonet
existe afinal contra quê?
Sobrealimentada
de nestum “esta gente” horrível
(ingrata, pe’cebe?, o mais possível)
com prole viciosa e janota
tem vida de tal maneira ‘idiota’
que no meio de fartura tanta
está a ‘nossa’ caridade santa
enfastiada!
De tanto inútil papel
na economia alimentar
a quem dará de mamar
o banco da tia Isabel?!
existe afinal contra quê?
Sobrealimentada
de nestum “esta gente” horrível
(ingrata, pe’cebe?, o mais possível)
com prole viciosa e janota
tem vida de tal maneira ‘idiota’
que no meio de fartura tanta
está a ‘nossa’ caridade santa
enfastiada!
De tanto inútil papel
na economia alimentar
a quem dará de mamar
o banco da tia Isabel?!
Os Pobrezinhos
[extratos de uma crónica de António Lobo Antunes]
Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.
Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam.
O pobre da minha tia Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico
- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho
o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeo.
(…)
Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros
- O que é que o menino quer, esta gente é assim
e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.