Já a ninguém passa despercebido o círculo vicioso: o exercício da política foi baixando de nível (ético e intelectual) e os homens capazes refugiaram-se na realização que lhes proporciona o desempenho de profissões em que o sucesso depende apenas do mérito – e mais o terreiro da política fica à mercê dos néscios e desonestos, e mais os políticos baixam de nível, e mais a vida pública fica entregue a um ror de garotos (mesmo que sejam garotos de alguma idade, aqueles que nunca foram jovens mas serão sempre garotos). A gestão da coisa pública, aquilo que mais influi e condiciona a felicidade de todos, está entregue a medíocres. Todos o sabem, todos os cidadãos comuns o vêem e ninguém da paupérrima classe política o consegue disfarçar. Já se aceita como normal que os destinos de uma freguesia, de um concelho, de um ministério ou de um país estejam nas mãos de uma série de indivíduos que nunca venceram numa profissão, nunca demonstraram saber ou mérito – se não a esperteza de se arregimentarem numa juventude partidária quando ainda mal sabiam ler e, quantas vezes sem nunca aprenderem a escrever!, nela se guindaram à obsessão de serem ‘importantes’, favorecidos, influentes e influenciados, poderosos e, sobretudo, ricos. E vejam com que pose vão subindo na escala da aldrabice, presunçosos, de nariz empinado e ombros ondulantes, convencidos ou tentando convencer de que são mais do que incapazes de se enxergarem na sua ridícula ignorância.
O meu misticismo é não querer saber.
É viver e não pensar nisso.
Alberto Caeiro, ‘O Guardador de Rebanhos’
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Andam uma envergonhada Nação e um passivo Povo entregues
a esta miséria moral. Condes de Abranhos crescem como trepadeiras nas fartas
pompas de municípios ocos, de onde Calistos Elóis encarreiram para Lisboa
fazendo dos hotéis vizinhos de São Bento vespeiros tresandantes de pacholi. A
malta, impávida e silente, faz de conta que não tem culpa nenhuma. E a trupe,
empertigada e próspera, assertiva-se na versão salazarenta do american dream da ocidental praia: “A
porta está aberta a todos”.
E a porta está em frente de qualquer um – a quem basta
que tenha a arguta e perspicaz esperteza de se colocar no lado certo do
arranjinho nacional.
Querem melhor terra, de mais oportunidades?