Se é comum ao quotidiano de cada homem não agradar a todos, já as atitudes que não agradam a ninguém provocam sempre um soluço de hesitação a quem ousa (ou se atreve) a assumi-las. Não sei se José Hermano Saraiva alguma vez se sentiu ou mais objetivamente agiu, enquanto ministro da ditadura, de modo a não agradar a ninguém. Não sei se, como o ouvi dizer certa vez e como os seus próximos por outras vezes proclamaram, o Dr. Saraiva esteve na posição de não agradar a nenhuma das partes – o(s) governante(s) ditador(es) e os governados oprimidos – mas eu corro hoje, a propósito da morte dele, o risco dessa atitude.
Segui atentamente a vida de José Hermano Saraiva – porque ele era quase meu conterrâneo, porque era uma personagem notória e exuberante quando passava um mês de verão na “vila perfumada” em que cresci, porque foi ministro do Estado Novo e na época mais marcante da minha geração e da minha própria história pessoal, porque me aguçava a curiosidade intelectual uma estranha coexistência de abissais diferenças e enigmáticas proximidades entre ele e seu irmão António José, este portador de um pensamento que não raras vezes me fascinou. Por essa convocatória a que a minha atenção não resistiu, muitas vezes falei dele, o citei e o contraditei – e sempre, invariavelmente, sem esconder que se tratava de uma personalidade e de uma pessoa a quem eu não votava concordância.
Algumas vezes, se não é mais exato dizer que foram muitas, a minha opinião sobre a vida e obra do Prof. José Hermano Saraiva se fundamentou nos factos que o meu especial amigo e companheiro Rogério da Costa Pereira tão eloquentemente escreve em “Hoje, a memória e a morte” e "Não, Alberto, tiveste de esperar cinco anos". E em muitos outros ensejos me exprimi sobre substância que certamente ao Dr. José Saraiva não agradaria ouvir se a ouvisse – fosse a propósito de algumas fraturantes teses historiográficas que ele defendeu, fosse pelas posições políticas que sobressaíam da sua vida pública, fosse ainda por razões que são mais de ordem psicossocial e que no presente contexto são minudências espúrias. Tendo conhecido os seus filhos e convivido com figuras gradas da minha terra que tinham diversas proximidades ao advogado-professor-ministro, não me coibi de pensar dele – da sua obra, claro – o que pensava como cidadão e só o meu humilde patamar me acautelou reserva nos domínios científico e intelectual, se alguma vez a acautelei.
O porém que me leva a escrever esta crónica suscita-se-me pela força da que foi, precisamente, a dileta matéria do Professor e quiçá a menos importante das minhas divergências com ele: a História. A História, esse arquivo plano e inexorável do tempo vivido e por viver, é o que me leva a distanciar-me hoje do que sentem, pensam e escrevem aqueles que normalmente estão mais perto da minha linha de pensar. A História que no exato dia de hoje começou – apenas começou – a redigir o veredito sobre quem é José Hermano Saraiva, esse juiz incomparável, insubstituível e inexorável, começa hoje a fazer de José Hermano Saraiva aquilo que ele é, aquilo que de verdadeiramente essencial foi a sua vida e aquilo de objetivamente verdadeiro fica da sua passagem por este “vale de lágrimas”. A História e o que é seu substrato fundamentante e único: o tempo. A História e o tempo terminam e simultaneamente começam, de verdade, no dia em que um homem “deixa de ser visto”, como bem nos descobriu Fernando Pessoa. Esse dia, o dia da morte, é hoje. Esse fogacho em que um homem perde tudo menos tudo aquilo que na verdade e eternamente é, soa-me a mim um dia grave, solene e de silêncio curvado. Refira-se a quem se referir.
A morte é um fenómeno doloroso, ontológica e fundamentalmente doloroso por sobre a condição humana. E independentemente de qualquer balanço entre o advogado brilhante e comunicador genial, de um lado, e o académico controverso e colaborador da opressão, por outro, hoje é o dia da morte para um homem, homem como nós. Não é, seguramente, o momento para se acertarem as contas que em vida não se teve a oportunidade – e, quem sabe?, a estatura – para se acertarem de homem para homem, de acusador para arguido, de vivo para vivo. O calor final que ainda se sente no início de um cadáver é ambiente injusto para o ódio ou mesmo o ressentimento tersar armas - porque sem a honra do duelo.
Com Drummond de Andrade, hoje encontraria a minha melhor palavra no meu melhor silêncio. Quebro-o, todavia, aqui. Essa é uma intransponível força que se me impõe, a mim, jovem maltratado outrora e homem estruturado depois, em cima de valores de uma esquerda que quem puder ser intelectualmente honesto e justo não poderá afirmar com absoluta certeza que esteja em tudo no outro extremo do diâmetro em que por ora vejo José Hermano Saraiva. Vejo-o, vi-o sempre, postado na direita contra que determinei quase toda a minha vida. Mas, para mim, não me basta que haja “alguns aspetos” em que a esquerda é diferente. Ela é, em tudo, diferente. Soubesse eu se existe a Alma e não deixaria de votar Paz a esta por que(m) hoje falo.
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