quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

Para os jovens do meu país

[António Filipe - 2.Jun.2012, 07:16]

Para os jovens do meu país

Nos últimos tempos tenho vindo a verificar que, no Facebook e nalgumas mensagens de correio electrónico, aparecem várias mensagens referindo que, em Portugal, faz falta um Salazar, para “endireitar isto”. Ora, estas mensagens preocupam-me. E preocupam-me, principalmente, quando vêm da parte de jovens que não fazem a mínima ideia do que se passava no tempo do Salazar.
(…)
Não se contentem com meias democracias e, muito menos, com ditaduras disfarçadas de democracia. Lutem por uma sociedade justa, em que haja pão para todos, em que haja paz e liberdade a sério, em que haja educação e saúde tanto para os mais pobres como para os mais ricos. E, se não for pedir muito, lutem por uma sociedade em que deixe de haver pobres. E, quando digo “lutem”, quero dizer “lutemos”. Terão toda a minha solidariedade e apoio. Mas, acreditem, Salazar, não. Fascismo, nunca. Na realidade, o que vocês querem é uma sociedade diferente, com governantes mais honestos, menos corruptos e mais solidários com o povo que os elege. O que vocês querem é, exactamente o que eu queria quando era jovem: um futuro melhor. Foi por isso que lutei. É por isso que continuo a lutar. Hoje, já não tanto por mim próprio, mas mais pelo meu filho e pelos jovens como ele. Acima de tudo, não desistam. Lembrem-se que, no tempo do Salazar, muita gente morreu para acabar com a ditadura. E cruzar os braços é meio caminho andado para voltarmos a ela.

"Pior é impossível..."

Que estranho fenómeno leva os jovens, desencantados com o Presente (que conhecem) a sonhar com o regresso ao Passado, que não conheceram?
Porque medram tão paradoxais fenómenos naqueles que precisamente mais interessados são no Futuro?
A meu ver, há (possivelmente entre outras) duas raizes para esta aberração: a ideia de que, à vista de tantos males de um Presente madrasto, "pior é impossível" - ideia que leva à conclusão de que, com governantes tão maus, qualquer um que venha pode, desde que diferente, ser melhor; e a assimilação de uma propaganda, cada vez mais requintada em termos de técnica de lavagem cerebral, que os políticos no poder fazem para encobrirem as suas próprias incapacidades e a mentira das suas próprias promessas: a culpa é de quem veio antes.
Estas, duas raízes deste fenómeno. "Estes são maus, os anteriores eram iguais ou piores, 'eles' são todos iguais" - logo, acabe-se com 'todos', venha um D. Sebastião qualquer que nos liberte deste jogo de mentiras que é a alternância.
O diabo, aquilo que não se vê, é que a alternância é, afinal, a Democracia - e que a Democracia é o menor dos males. Até por ser o único regime em que os males se conhecem - e podem ser mudados.


Artigo Completo
Nos últimos tempos tenho vindo a verificar que, no Facebook e nalgumas mensagens de correio electrónico, aparecem várias mensagens referindo que, em Portugal, faz falta um Salazar, para “endireitar isto”. Ora, estas mensagens preocupam-me. E preocupam-me, principalmente, quando vêm da parte de jovens que não fazem a mínima ideia do que se passava no tempo do Salazar. E, pior que isso, nem sequer se dão ao trabalho de fazer alguma pesquisa porque, caso o fizessem, rapidamente chegariam à conclusão que o Salazar não passou de um tirano. Estes jovens nem se apercebem do que eram as torturas da PIDE, do que era pôr uma metralhadora nas mãos de um rapaz de 20 anos e obrigarem-no a ir para uma guerra, obrigarem-no a matar sem, muitas vezes, ele próprio saber porquê e para quê. Não fazem ideia do que era um Tarrafal, do que era ser jovem e ouvir conversas em casa e ser avisado pelos pais que “o que aqui se diz não é para dizer na rua”. Não sabem o que é ter que emigrar, pela calada da noite, arriscando a prisão ou até a morte. Mas a culpa não é destes jovens. Acima de tudo, a culpa é destes políticos que nos têm governado, praticamente desde o 25 de Abril de 74, data em que foi, precisamente, derrubado o sistema fascista que Salazar instaurou em 1933 e que tivemos que aguentar durante mais de 40 anos. Primeiro com Salazar e, depois, com o seu seguidor, Marcelo Caetano. Não interessa a estes políticos ensinar nas escolas o que foi o regime salazarista. Não lhes interessa ensinar nas escolas a razão de ser do 25 de Abril. Não! Isso não lhes interessa nada. É que, quanto menos consciência os jovens tiverem das tiranias do fascismo, mais fácil se torna a implementação das políticas neoliberais, também elas, cada vez mais fascistas.

Neste último ano, os políticos neoliberais que nos governam vieram agravar substancialmente o estado das coisas. Desculpando-se com a tróica, impõem cada vez mais austeridade ao povo, enquanto a eles, a crise lhes passa ao lado. O país está pior que nunca, em todos os aspectos. Os salários a descer, o trabalho precário a aumentar, o desemprego a subir em flecha. Quanto aos jovens, o número oficial de desempregados é de 36%. E são estes mesmos jovens que afirmam que o Salazar é que faz falta. Não imaginam eles que as políticas ultraliberais que estão a ser aplicadas são, na sua essência, as políticas que Salazar aplicaria se regressasse. Mas para pior ainda. Por isso não há interesse, por parte dos governantes, em elucidar os jovens sobre o que foi o fascismo. É que se eles soubessem, depressa chegariam à conclusão de que, a continuarmos assim, nos aproximamos a passos (trocadilho intencional) largos de um sistema ditatorial como aquele que derrubámos há 38 anos. Com uma pequena diferença: os ditadores são os mercados e não o Salazar. Já nos tiraram quase tudo o que conquistámos. Só falta tirarem-nos a palavra. Mas, como se tem visto, tentativas não têm faltado.

Quero, agora, falar directamente para os jovens do meu país:
Não se iludam. O fascismo nunca foi nem será solução para nada. Se estão insatisfeitos com o sistema que temos (e têm toda a razão para estar), lutem contra ele, tal como eu e muitos outros lutámos contra o fascismo e, hoje, estamos desiludidos, porque não foi por isto que lutámos. Portanto, a luta continua. Mas, uma coisa é certa: FASCISMO, NUNCA MAIS! Lutem por uma democracia a sério. Não se contentem com meias democracias e, muito menos, com ditaduras disfarçadas de democracia. Lutem por uma sociedade justa, em que haja pão para todos, em que haja paz e liberdade a sério, em que haja educação e saúde tanto para os mais pobres como para os mais ricos. E, se não for pedir muito, lutem por uma sociedade em que deixe de haver pobres. E, quando digo “lutem”, quero dizer “lutemos”. Terão toda a minha solidariedade e apoio. Mas, acreditem, Salazar, não. Fascismo, nunca. Na realidade, o que vocês querem é uma sociedade diferente, com governantes mais honestos, menos corruptos e mais solidários com o povo que os elege. O que vocês querem é, exactamente o que eu queria quando era jovem: um futuro melhor. Foi por isso que lutei. É por isso que continuo a lutar. Hoje, já não tanto por mim próprio, mas mais pelo meu filho e pelos jovens como ele. Acima de tudo, não desistam. Lembrem-se que, no tempo do Salazar, muita gente morreu para acabar com a ditadura. E cruzar os braços é meio caminho andado para voltarmos a ela.

O vosso futuro é incerto. Mas, lembrem-se que, no tempo do Salazar e do Marcelo Caetano, o futuro que nos esperava era a guerra colonial. Milhares de jovens por lá ficaram. O vosso futuro é, talvez, o desemprego ou o trabalho precário. Está nas vossas mãos lutarem contra isso e mudarem o rumo. Mas não chamem o Salazar, que esse não faz cá falta. Já os há por aí em demasia, disfarçados com a bandeirinha na lapela.
Força, juventude! Os cotas cá estão para ajudar.