quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

Boa tarde, senhor doutor

[António Filipe, 20.Jun.2012, 07:44)

Vivo numa aldeia onde as pessoas ainda dão a “salvação” umas às outras. Acho um gesto bonito. Vou na rua e toda a gente me diz: “Boa tarde, Sr. António”. E eu, claro, retribuo. Se vou acompanhado com um amigo ou uma amiga, dizem: “Boa tarde”. E nós, claro, retribuímos. Também com o nome, se o soubermos, ou só com um simples “Boa tarde”.
É tudo muito lindo. Mas, por vezes, surge um problema. Se eu vou acompanhado por um médico ou um advogado, então, a pessoa que se cruza connosco, diz: “Boa tarde, Sr. Doutor”. Como tenho consciência que toda a gente sabe que eu não sou licenciado (pois isso bastaria para me chamarem doutor e eu, como bom português, aceitaria o título de bom grado), nem sou mestre e, muito menos, doutor, parto do princípio que a saudação “Boa tarde, Sr. Doutor” não é para mim. E aqui é que reside o meu dilema: devo ou não responder? Se retribuo a saudação, as pessoas poderão ficar a pensar que sou presunçoso. Por outro lado, se não digo nada, ficarão a pensar que sou mal-educado.

Estás a ser injusto, Companheiro!
Tu não sabes o custo que suportaram os ganapos para poderem mandar os assessores, as secretárias e os assistentes colocarem-lhes o DR antes do nome. Anos e anos - alguns décadas - a terem de se matricular todos os setembros, bandeiras e bandeiras carregadas às costas de comício em comício, centenas de euros gastos pelos papás na compra de correctores ortográficos para os iPads, resmas de receitas de guronsan dos veneráveis senhores doutores para o day after das queimas, bjocas atrás de bjocas lambusadas no acne das filhas dos senhores professores-doutores, decibeis aos megas (aos teras) que tiveram de deixar entrar pelos ouvidos para os doutores-presidentes os incluirem nas listas... !
Tu nem te passa, Companheiro - como eu não imaginava, antes de conhecer de perto a razão por que os homens da tua geração e da tua cultura têm de barafustar meia dúzia de vezes com os serviços de secretariado da respeitável instituição pública para não lhes conspurcarem o nome (o nome que não querem camuflar) com o verdadeiro insulto com que o velho estado novo e o novo estado velho tentam, com duas letrinhas apenas, misturá-los com tanta doutorice!
ARTIGO COMPLETO
Vivo numa aldeia onde as pessoas ainda dão a “salvação” umas às outras. Acho um gesto bonito. Vou na rua e toda a gente me diz: “Boa tarde, Sr. António”. E eu, claro, retribuo. Se vou acompanhado com um amigo ou uma amiga, dizem: “Boa tarde”. E nós, claro, retribuímos. Também com o nome, se o soubermos, ou só com um simples “Boa tarde”.
É tudo muito lindo. Mas, por vezes, surge um problema. Se eu vou acompanhado por um médico ou um advogado, então, a pessoa que se cruza connosco, diz: “Boa tarde, Sr. Doutor”. Como tenho consciência que toda a gente sabe que eu não sou licenciado (pois isso bastaria para me chamarem doutor e eu, como bom português, aceitaria o título de bom grado), nem sou mestre e, muito menos, doutor, parto do princípio que a saudação “Boa tarde, Sr. Doutor” não é para mim. E aqui é que reside o meu dilema: devo ou não responder? Se retribuo a saudação, as pessoas poderão ficar a pensar que sou presunçoso. Por outro lado, se não digo nada, ficarão a pensar que sou mal-educado.

Como não gosto que me chamem mal-educado (mesmo em pensamento), dou as “Boas tardes”, na expectativa de não me considerarem presunçoso. E sempre na esperança de que talvez assim, na próxima vez, me saúdem com um “Boa tarde, Sr. Doutor”, mesmo que vá sozinho. O que, por acaso, até já aconteceu com pessoas que não me conhecem bem. Como me vêem várias vezes acompanhado por amigos a quem chamam “doutor”, eu apanho com esse título por tabela. Ou então julgam que “doutor” é uma doença que se pega! Mas quem sou eu para os contradizer? Não sou médico. Nem doutor.
E quando vou a um restaurante ainda é mais caricato. Se vou sozinho, tenho um tratamento normal. Se vou com um “Sr. Doutor” até aparece o patrão a fazer vénias. Ao Sr. Doutor, claro. E, de vez em quando, alguém vem à mesa perguntar: “Está tudo bem, Sr. Doutor?”. Dirigindo-se ao Sr. Doutor, claro. E no fim da refeição – acreditem que já me aconteceu – o patrão tem o descaramento de chamar o empregado e dizer-lhe: “Traga um bagacinho para o Sr. Doutor, que pago eu.” E eu, ou bebo metade do bagacinho do Sr. Doutor ou fico a ver navios. O que me chateia é que, no fim da refeição, o patrão recebe o dinheiro dos dois, o que quer dizer que tem consciência de que o meu dinheiro vale tanto como o do Sr. Doutor. E assim perdeu um cliente, que até talvez lá voltasse mais vezes que o Sr. Doutor.
E se eu, ao cruzar-me com um pedreiro o saudasse “Boa tarde, Sr. Pedreiro”? Ou, da próxima vez que passasse por um colega desempregado, o saudasse com um “Boa tarde, Sr. Desempregado”?
A sabujice deste povo impressiona-me. E, depois, não querem que eu me irrite!