quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

Morrer acima das possibilidades

22.Mai.2012, 00:30

Os "Globos de Ouro" são o que são e servem para o que servem. A SIC confere-os há quase 20 anos e eu, que vi a cerimónia pela primeira vez, sou, talvez por isso mesmo, daqueles que sempre acharam que ali nem tudo era bom e hoje pensam que por ali nem tudo é mau.
"Sangue do Meu Sangue", a película galardoada como melhor filme de 2011, foi na gala deste ano - e mesmo antes de ser visto ou se lhe saber o guião - motivo de inquietação cívica e moral. Ao receber o Globo que distinguiu Rita Blanco como a melhor actriz do ano, o elenco lastimou que "a crise dos mercados" tenha escolhido o Cinema para atingir o nível de 100% nos cortes dos apoios e lembrou que Churchill, quando lhe perguntaram quanto cortaria a austeridade na Cultura, respondeu: "Nada! Se cortássemos na Cultura, o que nos faria lutar a seguir?!". E quando lhe coube receber o galardão máximo na sua categoria (prémio para o melhor filme do ano) sublinhou que o realizador João Canijo não podia estar presente por motivo de andar no estrangeiro à procura de apoios à produção e fez-se representar pelo actor Nuno Lopes, que foi lacónico e directo:

"Este prémio não é dedicado nem aos actores, nem aos técnicos, nem a todos os que apoiaram este filme porque se calhar não vão fazer mais nenhum e é perigoso viver de ilusões".
É certo que o filme foi duplamente galardoado em Espanha, homenageado na Argentina, foi Melhor Filme na Festival Internacional de Pau e venceu o Grande Prémio do Juri do Festival de Cinema de Miami. Mas João Canijo, os seus actores e os seus técnicos sabem em que país vivem, conhecem a extensão do mundo que Angela Davis diagnosticou: "Do que este país precisa é de mais políticos desempregados". É que o 'coiso', que não chega a todos, alastra geralmente pelo lado errado.