O trabalho era danado, que a gente aos 30 anos não pode dar negas - mas havia um prémio todas as noites. Uma imperial para fazer companhia e uma coca-cola para amaciar o sabor - e a seguir era o paraíso a dobrar. Os standards, as síncopas e os contratempos elevavam-nos até à porta - mas eu entrava, mesmo lá dentro do céu, era quando os manos Moreira abriam a jam. Sentava-me no meio dos timbalões etéreos e esperava que o miúdo arrancasse das teclas o mel todo que elas só lhe davam a ele - e bebíamo-lo todos pelos ouvidos. Vinham as minhas falsas entradas e era diferente o sorriso do Babá - a complacência dos manos parava-lhe no sorriso de homem prematuro. Prematuro. Mavioso como as colcheias - parar para quê? Parecia impossível que o meu deleite não fosse maior que o gozo dele! E a madrugada entrava sempre por aquele sonhar - dormia comigo, sozinho na cama de casal, o sorriso das notas do Babá.
Hoje é 25 anos depois. E hei-de adormecer menino, no meio de baquetas mágicas atrás do sorriso das teclas do Babá - aquele miúdo de olhar terno e profundo. E hei-de acordar desinfeliz - no paraíso que me ficou daquele homem imenso. Prematuro. Pela sua condição de génio.