quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

25 de Abril

E tu estás a dormir?! Acorda, caraças!
A noite ia longa - a noite já lá ia havia muito, afinal. Música. Outra música. E depois a Grândola. Outra vez a Grândola... Alto, tão alto como todos os dias - mas mais sonoro, sim. E com outra melodia, sim, que esta melodia estremece-nos cá dentro, como que a despertar um bom pressentimento.
Salta da cama, pá! Vamos ao Terreiro do Paço!
Parecia fazer sentido... Aquela música e o nome daquela praça... E aquela paz na rua! Será possível?!
Eternos 20 minutos de arredores velozes, debaixo do acelerador nervoso. Palavras sem nexo. E as dúvidas. E a discussão, a duas esperanças.
- Será o Kaulza?, os gajos não perdoaram a malta das Caldas...
- Qual quê? Um golpe desses era no palácio, em silêncio, tu nem sabias de nada. E a Grândola?
Fazia sentido. E estávamos já às Amoreiras. E aclaravam-se as dúvidas. Aquele frenesi nas ruas... Nas ruas aquela Paz - aquela buliçosa Paz! E os soldados! Olha, são cravos!
Foram as lágrimas que nos pararam o carro. Saímos os dois. E demos o primeiro abraço em liberdade.


38 vidas
A bem dizer, 37 a andar para a frente - umas mais e outras nem por isso. E agora a meterem-nos marcha-atrás. O Salgueiro Maia levou-o o Destino. O Otelo enterram-no vivo. É saudade o Ari a ver "passar a procissão do meu País a cantar". Do Zeca, é o medo de o calarem. O Adriano, o Zé Mário, os outros voltam a ser voz da coragem. Estridem mais os hossanas, as bandeiras passaram a pins na lapela das alpacas, a festa fechou-se em 2 horas mentirosas no covil de São Bento. Ilegalizaram os partidos políticos, que agora há os manuais de economia. Acabaram as eleições, que agora há mercados. Qual trabalho? agora há os juros. Fecham fábricas e despedem números. Proibem o Futuro, que agora há o défice. Os valores confiscaram-nos para a bolsa. Abominam o Amor, que agora há a competitividade. Aboliram o Povo, que agora há a imagem-a-dar-ao-exterior.
Dissolvem a Nação - isto agora é uma empresa.
Tu e eu, Irmão, somos agora dez milhões de mais-valia. Ou que emigremos.
E tu estás a dormir?! Acorda, caraças!