"Galiza, ficas sem homens que possam cortar teu pão
Nos últimos dias os nossos governantes têm aconselhado o povo a emigrar. O povo que os elegeu, note-se!
Primeiro foram os desempregados, depois os jovens, depois os professores. Um deles até se deu ao luxo de propor a criação de uma “agência nacional para ajudar os portugueses a emigrar”. Como ele se está marimbando para ajudar os portugueses, esta agência deve servir para criar mais uns tachos para mais alguns “boys” que ainda estão na lista de espera. A este último quero dizer que emigrar não é o mesmo que ter um tacho na Bélgica. Ir para um país estrangeiro, onde não se tem amigos e, muitas vezes, nem se sabe a língua não é a mesma coisa que ser eurodeputado em Bruxelas, onde já está garantido um emprego (por sinal, a ganhar muito bem e com todas as mordomias) e onde já tem amigos e colegas e, se não entender a língua, basta colocar uns auscultadores nos ouvidos (que é coisa que, muitas vezes, estes governantes não têm) e ouvir a tradução para a sua língua materna. Não, isso não é emigrar. Isso é deixar uma “zona de conforto” para ir para uma zona de maior conforto. Emigrar é aquilo que os meus pais fizeram há quarenta e tal anos, abandonando a família e os amigos, sem saberem nada sobre o país de acolhimento e onde não havia auscultadores para tradução. E eu só me pude juntar a eles mais tarde. E sabem porquê? Porque os governantes (fascistas, na altura) não me deixaram ir com eles. E agora, já de regresso, encaro com uns governantes (democratas, dizem eles) que me mandam emigrar. É irónico, não é?
Precisamente por ter sido emigrante durante cerca de doze anos é que estas declarações me chocam profundamente. Deixei o meu país por razões económicas. Alguns anos depois, ouvi alguns dos governantes portugueses da altura (entre eles, Mário Soares) a incentivar os emigrantes a regressarem a Portugal. “Vão para Portugal, que, agora, aquilo está bom e já existem condições para uma vida melhor”. Mais tarde, regressei a Portugal com a minha família. Não porque acreditasse nos políticos que me pediam para regressar, mas porque as saudades da minha terra e dos meus amigos me assaltaram. E também porque acreditava que o meu país estaria melhor do que quando o deixei uma dúzia de anos antes. Só eu sei como estava enganado. Ao regressar, percebi, em pouco tempo, que tinha deixado a minha “zona de conforto” no país estrangeiro. Mas nem por isso desisti. Arrependi-me algumas vezes, mas nunca, durante os vinte e quatro anos que já passaram, pensei em voltar a emigrar. Tenho tido muitas dificuldades, tenho aturado muitas coisas a que não estava habituado, mas há qualquer coisa que me ultrapassa e que sempre me deu a sensação de que aqui é que eu estou bem. Tenho um filho que nasceu no estrangeiro. Para ele seria facílimo regressar ao seu país de origem, onde, tenho a certeza, teria um futuro melhor. Mas nem a ele eu aconselho a deixar Portugal. É qualquer coisa inexplicável!
Por isso, Exmos. Senhores Miguel Relvas, Paulo Rangel e Passos Coelho, não lhes reconheço autoridade nenhuma nem acho que tenham competência nenhuma para me mandarem emigrar. Nem a mim nem ao meu filho. Para mim, já não peço nada. Vocês e outros iguais, já me tiraram quase tudo. Mas criem, isso sim, condições para que o meu filho possa ter, neste país, um futuro condigno, como é seu direito. É esse o vosso dever. Essa é a vossa obrigação. CUMPRAM-NA. Ou, então, emigrem vocês. Os portugueses agradeciam e, para fazer e dizer o que fazem e dizem, não fazem cá falta nenhuma."
* António Filipe, in Pegada, 21.Dez.2011