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Sempre a Economia...

Os novos ministros das Finanças e da Economia são dois ilustres “desconhecidos” – não tanto porque não tenham os seus curricula (com bom nível, ao que conheço) mas, é claro, porque não têm sido tão visíveis e televisíveis como normalmente é qualquer personalidade ministeriável hoje em dia.
A falta de visibilidade ou publicidade, por mim, confere aos responsáveis pelos dois super-ministérios a primeira disposição de lhes conceder o benefício da dúvida. E, diria mesmo, mais ainda: a falta de rigor e de qualidade, na vida pública e no jornalismo, se alguma coisa me ajuda, nisto de avaliar as expetativas, é a formar uma primeira boa impressão dos visados – infelizmente, a notoriedade nos media tem sido maioritariamente reservada a quem poucos méritos tem para afirmar sem publicidade. Dois super-ministros pouco “colunáveis”? Ótimo, digo eu, até ver.
Depois desta primeira presunção de favor, há a questão dos curricula. Quer Vitor Gaspar, quer Álvaro Santos Pereira têm uma história de vida, técnica e profissionalmente falando. E, passando os olhos pelo curriculum vitae de cada um deles, sabemos que não são iniciados – são homens da Economia estudada (veremos se trabalhada e vivida). Mais um bom prenúncio na avaliação de perfil.
Aos fatores quase circunstanciais de benigna expetativa dos dois ministros acrescem dois outros, menos circunstanciais e mais importantes: é da Economia portuguesa que vão tratar e vão ocupar-se dela numa conjuntura (será só conjuntura?) extremamente difícil. Razões mais que suficientes, mais que fortes para se desejar que tenham sucesso na complexa missão que aceitaram abraçar. E, se é certo o que diz a imprensa sobre terem eles sido “segundas escolhas” – por sobre estarem integrados num coletivo ministerial que é notoriamente fraco e inexperiente, no seu conjunto – então há ainda mais uma boa razão para se lhes desejar bom trabalho, até pelo dever que temos, nós simples cidadãos comuns, de agradecer a quem se disponibiliza para tomar em mãos tarefa tão espinhosa, partindo do princípio que duas personalidades com alternativa de vida profissional mais confortável merecem que à partida tomemos a sua aceitação como pura vontade de serviço público. Coisa tão rara como preciosa, nos dias que correm.
Como será o ministério destes dois homens? Só uma previsão se lhes pode avançar: vai ser muito difícil. Essa é a razão por que, com a breve e modesta reflexão que noutro capítulo faço, o meu voto é de que tenham coragem, inspiração e boa sorte.
Coragem, acima de tudo. Coragem dentro e fora de fronteiras.
Cá dentro, a margem de tolerância popular é pequena – tão gravosas são já as consequências de 37 anos de errada governação económica, tão sombrios os horizontes que a crise mundial e o domínio franco-alemão levaram ao extremo. Mas há constrangimentos internos de outra ordem. A classe económica portuguesa (falo do sector científico e técnico) é tradicionalmente medíocre, tímida e doutrinalmente facilitista e submissa e os governos dos últimos 20 anos viveram ainda na sombra do ilusório chavão de que Cavaco Silva seria uma ‘sumidade’ em matéria económica – quando os mais ilustres cultores da Economia contemporânea dizem e demonstram que o agora Presidente da República virou a economia portuguesa para o desastre quando foi Ministro das Finanças e “acumulou lixo debaixo do tapete” económico nacional quando foi primeiro-ministro. Hoje, Cavaco tem outras e mais severas funções no Estado – e continuar a projetar o desenvolvimento do país olhando de soslaio para as propostas do professor de Boliqueime pode tornar-se numa amarra fatal aos novos decisores da Economia e das Finanças. Por outro lado, à sombra do arcaísmo económico-financeiro de Cavaco abriga-se uma classe de financeiros (maxime na banca comercial) cuja ganância e desnorte causaram já danos inimagináveis à economia nacional.
Coragem no “diálogo” com Bruxelas, eis outra grave advertência que se coloca principalmente ao Ministro das Finanças. A Europa do euro parece ter os dias contados, a menos que os países periféricos se submetam a uma dependência que roça a escravidão diante dos países do “centro” – mas estes, sobretudo Alemanha e França, vão agora esticar a corda. E ao nó dos enforcados nem os escravos resistem.