A cidadania traz as suas desilusões. Senti-o hoje, de modo muito agudo.
Por simples questão de cumprimento do dever, dei resposta a queixas de irregularidades, muitas e graves, em área da vida pública com que me comprometi. Na averiguação vi do pior. Suspeitava de que a desonestidade e a corrupção não andavam por longe – mas nunca imaginei que o despudor no compadrio, na trafulhice, no abuso de poder chegassem tão longe.
Chamei a atenção, solicitei que, aberta e serenamente se levasse a investigação ao pormenor que afinal tinha sido tão fácil e clarividente na minha modesta averiguação. A reacção foi lapidar: atacaram-me a mim. Ai dos que ousam pedir o esclarecimento dos factos! Apesar de eu ter usado de tom cordial, português de lei, cautelosa franqueza e disponibilidade para serena cooperação, receberam-me com insultos, ameaças, tentativas de humilhação – e tudo com linguagem baixa, destemperada, injuriosa.
Levei o cumprimento do meu dever até ao fim – porque quem tem medo compra um cão. Saí de consciência serena. Mas com profunda desilusão. Não é só a desilusão de vermos que a podridão existe – é a de duvidarmos se a nossa disponibilidade, o uso do nosso escrúpulo, valerão de alguma coisa ante um polvo monstruoso, sem princípios, sem pudor, sem vergonha. Quando saía, reparei numa assistência “fiel”: uns tantos que se mostram ao “chefe”, para não serem esquecidos no momento asado – os que ali vão para fazerem o coro do encobrimento, da cumplicidade, da graxa, do arranjo. Desta vez calaram-se, que os argumentos só existiam de um lado, o lado das evidências. Desta vez murcharam. Mas não amocharam – porque não é diante da verdade que estão habituados a amochar. A verdade não lhes dá empregos de favor aos filhos, lugares parasitários a eles e aos amigos. A verdade só os incomoda, como ao “chefe”.
Saí daquele ambiente podre e, desta vez, não fui logo cuidar do meu trabalho. Precisava de uns minutos de sossego. Como se quisesse esquecer o que é impossível desleixar, como se quisesse ignorar o que é imperdoável que se negligencie.
A minha companheira de sempre quis ouvir-me – mas dei-lhe poucas palavras. Uma mente sã, como a dela, merecia ser sujeita a pormenores de tanta desvergonha? Até a mim me parecia que tinha feito uma viagem no tempo, directo a um passado de obscuridade medieval, directo ao buraco negro que habita o corpo dos que não têm alma. Precisamente aqueles que ao domingo vão à hóstia e batem no peito…
Ela queria ouvir-me, mas não insistiu por mais palavras minhas. Nem era preciso. Foi à estante, puxou da sua inestimável Sophia, foi direita à página que queria e leu-me meigamente:
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
