quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

Há um inventor na minha terra

O mundo pula e não avança…

O comum dos cidadãos entra em cada dia da vida com o mesmo olhar com que saiu de véspera – e sai dele com a mesma visão com que o tinha começado. E repete-se, dia após dia. Os benefícios que encontra, desfruta deles; os males com que se depara, habitua-se a eles. O cidadão prático arranja-se com os benefícios e adapta-se aos males. Usufrui ou suporta a vida, porque ela é como é.
No meio dos cidadãos práticos existem – por vezes – os que se acomodam menos ou se inconformam mais. Olham para as maravilhas da vida e pensam como potenciá-las; encaram os males da vida como necessidades de mudança. Intervêm sobre a vida – para a melhorarem. Estes são os inventores.
Com sentido quase tão prático como o de toda a gente, fui sabendo que na minha terra – na minha pequenina cidade – há um inventor. Entre os sentimentos a que me habituei, dei-me conta de estar o da adaptação à indiferença com que os meus concidadãos recebem, digerem e arquivam a notícia de que temos entre nós um inventor. Talvez por dor de consciência, quis saber do inventor da minha terra. Porque sei que a cidadania tem por antónimo a inveja – e que a inveja (o mais negativo e deprimente de todos os sentimentos humanos) é o mais comum sentimento da minha cidade pequena.
Observei o inventor Fernando Gonçalves, cidadão simples da minha terra, desta terra que é pequena, demasiado pequena para a dimensão criadora do inventor. Prestar-lhe reconhecimento é o mínimo. Apoiá-lo na sua actividade criadora seria a normal atitude de um concidadão. Se em mais não for, no combate pela restauração da cidadania na nossa terra.
Talvez com esse apoio, com esse combate, o inventor da minha terra chegue a inventar uma terra-mãe menos pequena. Nesta terra pequena em que a única coisa que verdadeiramente cresce no quotidiano é a pequenez.