quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

Défice, rating, mercados e outras tretas

A novela do Orçamento

O romance começa cedo – que é de pequenino que se torce o pepino. Em Portugal, como nos EUA, o futuro começa pela esperteza na escola.
Por cá, o futuro divide-se em duas classes de meninos com bons padrinhos: os marrões entram em Medicina, por via das notas de 20 compradas na escola dos padrinhos; os chicos-espertos entram nos partidos dos padrinhos, por via da graxa na bandeira da jota.
Lá fora, os kids são mais “democráticos” e pragmáticos: marrões e chicos-espertos agrupam-se numa agência de rating.
O que têm que ver os afilhados de cá com os de lá-fora? Lá iremos adiante. O que os assemelha e diferencia à partida é que os de cá entram pela porta de mandar no país enquanto os de lá-fora entram pela porta de governar o mundo.

Os experts reunidos na sua agência de rating montam sucursal em Lisboa, contratam um expert português (economista-jornalista ou jornalista-economista), sentam-no num escritório a ler os jornais e atender os telefones e recebem dele as informações de como vai a economia portuguesa.
O expert português apaixona-se pelo sol de Lisboa e pela noite do Bairro Alto, durante o dia colhe impressões nos jornais que fazem dele um expert, à noite colhe informações de quem lhe paga uns copos e os apresenta a quem faz dele um expert.
Pelos jornais do dia e pelos copos da noite, o expert português sabe que os partidos da oposição fazem ultimatos ao Governo e os políticos da oposição estão fartos da incompetência do Governo – e concluem que este país nunca vai pagar as dívidas contraídas com tanta incompetência, que tanta divergência política nunca vai gerar estabilidade. E relatam para a sede da sua agência que a economia deste país é débil, que em matéria de finanças este é um país de alto risco.
O Governo clama que o país teve o maior crescimento da União Europeia. O expert pensa para si que não lhe pagam para relatar banalidades que se lêem em qualquer relatório de organizações oficiais. A sua missão não é relatar dados objectivos – é ditar a sua análise, a análise da sua expertise – e diz que neste país ninguém se entende, que a oposição se desdobra em argumentos para provar que esta crise é insuperável e que, por isso mesmo, este é um país de risco. A oposição diz que o défice anunciado pelo Governo está camuflado e vai crescer descontroladamente – e o expert de rating relata para a sua agência que neste país já nem os nacionais acreditam na retoma e que, por isso mesmo, este é um país de risco.
A agência de rating recebe o relatório e publica que este país não vai conseguir vencer a crise. Os mercados acreditam, porque é uma agência de rating que o garante.
O Governo ausculta a banca internacional e os mercados – e opta por medidas recessivas. A oposição fundamenta-se nos mercados – e apoia as medidas recessivas, depois de as exigir.
O país entra em recessão. Não produz, não investe, vive pior consome menos, produz menos, exporta menos, não consegue a confiança dos mercados, não paga as dívidas. É um país de alto risco.
As agências de rating tinham razão. As agências de rating é que sabem.