No último quartel do século XX muitos pensadores proclamavam que o "mundo desenvolvido" entrara na "era da cidadania". Os cidadãos teriam aprendido a conquistar voz, teriam conquistado o direito a usá-la, estariam a usar os seus direitos exercendo o poder por suas próprias e legítimas mãos.
Ainda não terminou a primeira década deste novo século e já as sãs consciências não têm dúvida de que as democracias modernas se atolam no mais lodoso dos pântanos. Há 10 anos começou a ser por demais evidente o "divórcio entre os políticos e a sociedade civil"; há 5 anos já ninguém estranhava que políticos julgados e condenados por actos de gatunagem voltassem a concorrer aos lugares que serviram às suas pilhagens - e reconquistassem os cargos pagos pelo dinheiro público; hoje já até os mais ignorantes sabem que os partidos políticos não são mais do que corjas de vigaristas, incapazes e labregos, que nunca conseguiram exercer uma profissão e jamais teriam sucesso em actividades honestas. Mas, então, porque continuam os cidadãos a tolerar esta cáfila de bandalhos, a engordar os bandulhos destes pilha-galinhas, a submeter-se às desvergonhas destas verdadeiras associações de malfeitores?
Embora o mal venha de muito mais longe do que as nossas fronteiras, no caso português a resposta para tão estranha passividade do indivíduo comum (não já "cidadão comum") pode encontrar raizes em causas tão próximas como o obscurantismo do Estado Novo ou tão remotas como a miscelânea bio-etnológica do sangue celtibero, berbere, alano, vândalo e da escumalha que os romanos despejaram na Península - mas o que de maneira mais comezinha e chã se pode observar como resultado é o comodismo. Ou, mais rigorosamente, a acomodação. Os espertos que tomaram conta do poder lograram sucesso aliciando os súbditos com esta pragmática máxima: "não refiles, ajeita-te". Se anda meio mundo a enganar o outro meio, não é mais fácil pactuar com o primeiro?
Quem chega ao poder tem, hoje em dia, acesso a muito dinheiro. Com esse dinheiro - que não lhe custa a ganhar - é-lhe fácil comprar aliados, esbirros e mandaretes com a exacta facilidade com que se negoceia no mercado dos porcos. O que essa corja rouba ao património público pode parecer pouco, no contexto dos milhares de milhões de euros que com pesporrência tecnocrática citam a cada passo do seu discurso.
Mas não é pouco, não é nada pouco o que essa malta arromba no erário público. 40 ministérios, 200 institutos e empresas públicas, 300 câmaras municipais, 700 empresas municipais e fundações fraudulentas, 4.000 freguesias - tudo isso multiplicado por 20 (média, calculada por baixo, do número dos que se alambasam à sombra de cada uma dessas quadrilhas) dá "apenas" 100.000 que se governam à grande e à francesa à conta do orçamento. Continua a parecer nada de extraordinário: para enriquecer 100.000, nada de especialmente grave quando o trabalho é dos outros 9 milhões e 400 mil. Não seria por aí que se justificava a crise de que tanto nos falam, que tanto nos impingem, que tanto sentimos.
O problema é que os números reais são outros e muito maiores. O prejuizo que essa malta de 100.000 delinquentes - entre usurpadores, gangsters e gatunitos - causa às finanças do país, o maior prejuizo é da medida do que eles esbanjam, roubam para si, dão a roubar aos amigos, dão a especular a quem contratam, dão a deitar fora a quem por ordem deles faz asneiras ou simplesmente nada faz. Tudo isso somado, isso sim, faz os milhares de milhões de cifrões malparados. É aí que a malvada da crise tem o seu estômago - ou os seus intestinos, se quisermos mais certeira metáfora.
Pois é. O segredo da domesticação da cidadania está no truque de oferecer à malta essa miraculosa descoberta: ao veres o triunfo dos corruptos, não te incomodes a combatê-los - aproveita a fatia que te dão do bolo com que os deixas engordar. É como quem diz: abdica de ser cidadão, arranja-te. Primeiro rende-te, depois vende-te.
À sobrevivência dos corruptos, à perpectuação dos privilégios, basta isto: que cada homem se preocupe apenas em ajeitar-se, acomodar-se, arranjar-se. Com esse truque, os corruptos olham a malta nos olhos e, com o hipnotismo da cobra, arregimentam para o bando os que eram malta e passam a ser... corruptos. Fácil caminho para o sucesso! Qualquer ignorante, estúpido, borgesso ou brutamontes pode chegar aos mais elevados proventos, às mais altas honrarias.
Com este pequeno truque, os que se indignam são cada vez menos e os que se arranjam são cada vez mais. Com esta lógica, torna-se evidente que é mais cómodo aliar-se aos que são cada vez mais, que é mais fácil submeter os que são cada vez menos. Com esta matemática, basta saber fazer cálculos para encarar os ineptos, os néscios, os oportunistas com esta conclusão: Para quê vencê-los? Junta-te a eles!
Viva o arranjinho - o cidadão está morto!
O problema é que os números reais são outros e muito maiores. O prejuizo que essa malta de 100.000 delinquentes - entre usurpadores, gangsters e gatunitos - causa às finanças do país, o maior prejuizo é da medida do que eles esbanjam, roubam para si, dão a roubar aos amigos, dão a especular a quem contratam, dão a deitar fora a quem por ordem deles faz asneiras ou simplesmente nada faz. Tudo isso somado, isso sim, faz os milhares de milhões de cifrões malparados. É aí que a malvada da crise tem o seu estômago - ou os seus intestinos, se quisermos mais certeira metáfora.
Pois é. O segredo da domesticação da cidadania está no truque de oferecer à malta essa miraculosa descoberta: ao veres o triunfo dos corruptos, não te incomodes a combatê-los - aproveita a fatia que te dão do bolo com que os deixas engordar. É como quem diz: abdica de ser cidadão, arranja-te. Primeiro rende-te, depois vende-te.
À sobrevivência dos corruptos, à perpectuação dos privilégios, basta isto: que cada homem se preocupe apenas em ajeitar-se, acomodar-se, arranjar-se. Com esse truque, os corruptos olham a malta nos olhos e, com o hipnotismo da cobra, arregimentam para o bando os que eram malta e passam a ser... corruptos. Fácil caminho para o sucesso! Qualquer ignorante, estúpido, borgesso ou brutamontes pode chegar aos mais elevados proventos, às mais altas honrarias.
Com este pequeno truque, os que se indignam são cada vez menos e os que se arranjam são cada vez mais. Com esta lógica, torna-se evidente que é mais cómodo aliar-se aos que são cada vez mais, que é mais fácil submeter os que são cada vez menos. Com esta matemática, basta saber fazer cálculos para encarar os ineptos, os néscios, os oportunistas com esta conclusão: Para quê vencê-los? Junta-te a eles!
Viva o arranjinho - o cidadão está morto!