"
Porque tínhamos medo, Edgar, Kurt, Georg e eu andávamos juntos todos os dias. Sentávamo-nos junto à mesa, mas o medo permanecia tão isolado em cada cabeça como o trazíamos antes de nos encontrarmos. Ríamo-nos muito, para escondê-lo dos outros. O medo, porém, escapa-se-nos. Quando dominamos o rosto, esgueira-se pela voz. Quando se consegue conservar o rosto e a voz como um ramo morto, sai até pelos dedos. Deita-se fora da pele. Anda por ali à vontade, reconhecemo-lo nos objectos que estão próximos.
(...)
O Capitão Pjele, que tinha um cão com o mesmo nome, interrogou Edgar, Kurt e Georg pela primeira vez por causa deste poema.
O Capitão Pjele tinha o poema numa folha. Amachucou a folha, o cão Pjele ladrou. Kurt teve de abrir a boca, e o Capitão Pjele enfiou-lhe a folha pela boca abaixo. Kurt teve de comer o poema. Ao fazê-lo, ia sufocando. O cão Pjele saltou-lhe duas vezes para cima. Rasgou-lhe as calças e arranhou-lhe as pernas.
(...)
O Capitão Pjele pôs uma declaração e uma caneta em cima da mesa pequena e sentou-sde à secretária grande. Estendeu as pernas e empurrou a cadeira para trás. É só uma assinaturazinha, disse o Capitão Pjele. Na declaração, Georg leu, comprometia-se a, no estrangeiro, não fazer nada que prejudicasse o povo romeno.
Georg não assinou.
(...)
Três dias mais tarde, Georg voltou a meter-se no comboio. Tinha a caixa de fósforos no bolso do sobretudo. Não foi atirado do comboio em andamento. Chegou à Alemanha.
Antes de ir disse: Nunca mais escrevo cartas, só postais. O primeiro vinha dirigido aos pais de Edgar (...) O postal demorou dois meses a chegar. Quando caíu na caixa do correio junto ao portão, já era póstumo.
Duas semanas antes, o carteiro tinha batido à porta. Edgar assinara como tinha recebido o telegrama.
Seis semanas depois de sair do país, Georg aparecera estatelado, de manhã cedo, na calçada de Frankfurt. No quinto andar da residência provisória havia uma janela aberta.
No telegrama podia ler-se: Teve morte imediata.
(...)
Fomos duas vezes a Frankfurt, para ver o lugar onde Georg tinha morrido. Na primeira vez não houve fotos para Kurt. Na segunda, já estávamos suficientemente endurecidos para fotografar. Mas nessa altura já Kurt jazia no cemitério.
Examinámos a janela por dentro e por fora, a calçada de cima e lá em baixo. Pelos longos corredores da residência provisória, uma criança corria e respirava alto.. Andámos em bicos de pés. Edgar tirou-me a máquina fotográfica da mão e disse: Voltamos outro dia, a chorar não sai nada de jeito.
"
(...)
O Capitão Pjele pôs uma declaração e uma caneta em cima da mesa pequena e sentou-sde à secretária grande. Estendeu as pernas e empurrou a cadeira para trás. É só uma assinaturazinha, disse o Capitão Pjele. Na declaração, Georg leu, comprometia-se a, no estrangeiro, não fazer nada que prejudicasse o povo romeno.
Georg não assinou.
(...)
Três dias mais tarde, Georg voltou a meter-se no comboio. Tinha a caixa de fósforos no bolso do sobretudo. Não foi atirado do comboio em andamento. Chegou à Alemanha.
Antes de ir disse: Nunca mais escrevo cartas, só postais. O primeiro vinha dirigido aos pais de Edgar (...) O postal demorou dois meses a chegar. Quando caíu na caixa do correio junto ao portão, já era póstumo.
Duas semanas antes, o carteiro tinha batido à porta. Edgar assinara como tinha recebido o telegrama.
Seis semanas depois de sair do país, Georg aparecera estatelado, de manhã cedo, na calçada de Frankfurt. No quinto andar da residência provisória havia uma janela aberta.
No telegrama podia ler-se: Teve morte imediata.
(...)
Fomos duas vezes a Frankfurt, para ver o lugar onde Georg tinha morrido. Na primeira vez não houve fotos para Kurt. Na segunda, já estávamos suficientemente endurecidos para fotografar. Mas nessa altura já Kurt jazia no cemitério.
Examinámos a janela por dentro e por fora, a calçada de cima e lá em baixo. Pelos longos corredores da residência provisória, uma criança corria e respirava alto.. Andámos em bicos de pés. Edgar tirou-me a máquina fotográfica da mão e disse: Voltamos outro dia, a chorar não sai nada de jeito.
"
"A Terra das Ameixas Verdes é uma obra sublime, um relato contido e agudo de existências em perigo sob a ditadura de Ceausescu. Romance político? Também. Mas é sobretudo um poderoso libelo contra a desumanidade tortuosa dos sistemas de governo cuja legitimidade deriva da impossibilidade do silêncio e do medo. Um romance polifónico e anónimo: da maior parte das personagens conhecemos apenas o primeiro nome; da narradora, nem sequer isso..."
"Um livro singular e absolutamente maravilhoso"
Die Zeit
