quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

Ídolos

No Bicentenário de Chopin

O primeiro “culpado” foi o Miguel. Miúdo brilhante em todas as actividades em que os pais o inscreviam, um dia quis estudar música – e foi-lhe fácil ser dos melhores. A pianola electrónica que os pais lhe compraram para o teste de vocação que é o 1º grau foi a segunda culpada. Estava ali, no quarto do Miguel, sempre pronta a soltar uns sons maviosos (ou nem sempre…) e aquilo deu volta ao coração da garota.
Um belo domingo de manhã, quando toda a família gozava o atraso do levante no quentinho armazenado nos cobertores do despertar, os pais ouviram as notas da pianola. ‘O Miguel está a enganar-se na pauta… ou começa uma peça diferente?’.
Qual quê! O Miguel dormia mais justo que todos. As notas da pianola não eram dele – eram do fedelho da mana mais pequenita, 5 anitos de Leonor a fazerem de conta que eram gente. Com os queixos arrumados ao teclado, que as forças do combate desigual das alturas não davam para mais, aquela amostra de gente encarreirava ali, direitinhas, as colcheias e fusas que para ela ainda eram anónimas. Anónimas mas não desconhecidas – tratava-as por tu e elas dançavam com uma alegria que nada queria saber da ausência de clave de sol, estava-se nas tintas para a brancura do pentagrama nem-sequer-imaginário, desprezava por completo o sono do metrónomo. Aquilo que dali saía não se chamava partitura, nem solfejo, nem compassos, nem nada dessas erudições: era apenas Música. Com M grande.
No Setembro seguinte Leonor foi para a Academia de Música. Por sorte ou porque o pai também é orelhudo melómano, calhou nas mãos da Prof. Tamara Antontseva. Combinação perfeita: mestra sábia e aluna genial enrolaram-se numa cumplicidade musical de que, ao princípio, só elas duas conheciam a profundidade.
Assim nasceu um dos meus ídolos. Leonor Mendes é hoje conhecida como pianista – mas hoje já passaram uns bons anos, que ela já tem… 12. Nem falo das passadas do percurso que testemunhei. Serões em que a algazarra dos adultos se surdinava para deixar pairar estudos de Czerny, valsas de Moskowsky, andantinos de Haydn; semana e meia na pátria de Chopin confundido nas imaginárias fronteiras entre o giroflé e o pódio do concurso internacional, que para ela eram inimagináveis; ouvinte do deslumbre da Prof. Tamara nos intervalos das minhas próprias viagens musicais – tudo isso são hoje pequenos detalhes.
Hoje Chopin fez 200 anos. A escola de música, com o rigor de sempre, fez a homenagem. E vieram os curiosos, encarregados de educação, melómanos, jornalistas. À noite, o canal público de televisão prestou as honras ao grande Frydrik ou Frédéric bicentenário. E o país soube da mestria do maior dos compositores românticos. Pelas mãos de Leonor.