Há dias, foi uma das últimas (muitas) invectivas de Mário Crespo, obsesso inimigo de quem ele “escondeu” por detrás do seu “Palhaço”.
Hoje apanhei, da bancada deste país de treinadores, da guarita deste país de francos-atiradores, outra das venenosas flechas que cruzam os ares do Minho aos Algarves, com São Bento na linha central da rota.
A minha admiração por José Sócrates, feita de uma vida inteira de discordância e discussão – daquela discussão de que quase sempre nasce luz – não me determina a complexos de pretensa isenção, que me tentassem a alardear abertura para com mundividências diversas da minha. Tenho mais que me preocupe do que exortar o fair play (de aceitação da crítica) do lado de uma maioria a que me liga mais do que a admiração do líder. Nada disso. Guardo o texto de Euleriano Ponati, poeta não titular, porque o arquivo não é despiciendo no registo da História dos dias que correm. Aposto que não é. O futuro, talvez menos longínquo do que eu próprio prevejo, o dirá.
Ó Fernanda, dado
que já estou cansado
do ar teatral
a que ele equivale
em todo o horário
de cada canal,
no noticiário,
no telejornal,
ligando-se ao povo,
do qual ele se afasta,
gastando de novo
a fala já gasta
e a pôr agastado
quem muito se agasta
por ser enganado.
Ó Fernanda, dado
que é tempo de basta,
que já estou cansado
do excesso de carga,
do excesso de banda,
da banda que é larga,
da gente que é branda,
da frase que é ópio,
do estilo que é próprio
para a propaganda,
da falta de estudo,
do tudo que é zero,
dos logros a esmo
e do exagero
que o nega a si mesmo,
do acto que é baço,
do sério que é escasso,
mantendo a mentira,
mantendo a vaidade,
negando a verdade,
que sempre enjoou,
nas pedras que atira,
mas sem que refira
o caos que criou.
Ó Fernanda, dado
que já estou cansado,
que falta paciência,
por ter suportado
em exagerado
o que é aparência.
Ó Fernanda, dado
que já estou cansado,
ao fim e ao cabo,
das farsas que ele faz,
a querer que o diabo
me leve o que ele traz,
ele que é um amigo
de Sao Satanás,
entenda o que eu digo:
Eu já estou cansado!
Sem aviso prévio,
ó Fernanda, prive-o
de ser contestado!
Retire-o do Estado!
Torne-o bem privado!
Ó Fernanda, leve-o!
Traga-nos alívio!
Tenha-o só num pátio
para o seu convívio!
Ó Fernanda, trate-o!
Ó Fernanda, amanse-o!
Ó Fernanda, ate-o!
Ó Fernanda, canse-o!
Euleriano Ponati
(poeta não titular)
que já estou cansado,
que falta paciência,
por ter suportado
em exagerado
o que é aparência.
Ó Fernanda, dado
que já estou cansado,
ao fim e ao cabo,
das farsas que ele faz,
a querer que o diabo
me leve o que ele traz,
ele que é um amigo
de Sao Satanás,
entenda o que eu digo:
Eu já estou cansado!
Sem aviso prévio,
ó Fernanda, prive-o
de ser contestado!
Retire-o do Estado!
Torne-o bem privado!
Ó Fernanda, leve-o!
Traga-nos alívio!
Tenha-o só num pátio
para o seu convívio!
Ó Fernanda, trate-o!
Ó Fernanda, amanse-o!
Ó Fernanda, ate-o!
Ó Fernanda, canse-o!
Euleriano Ponati
(poeta não titular)
"Desde há 30 anos, neste país a política é o andar-para-a-frente e andar-para-trás para tudo ficar na mesma" - esta conclusão do Ricardo Paulouro fez-me ficar a pensar até ao fim do dia seguinte. E estou com ele. Mexer na comodidade (que por vezes até incomodidade) do status quo é algo que este país de brandos costumes não aprecia, nem aceita, nem tolera, nem perdoa. Por cá, não se perdoa que tenha sido dado à luz do dia o problema de dezenas de milhares de mulheres que abortavam sem instinto homicida, nem o casamento daqueles que são diferentes do que a Constituição não deixa mas o império do puritanismo impõe; nem que todas as classes tenham para com a sociedade o mesmo dever e ónus de arrostar com a carga que o trabalho com horários e resultados acarreta, nem que a saúde de todos se paute pela qualidade exigida pelos que recebem os cuidados, nem que sejam pedidas provas e contas a todas as classes profissionais, mesmo àquelas que tratam da mais séria matéria de que se faz o futuro (ou principalmente a essas e principalmente pela especialidade das matérias que são objecto da sua actividade.
Mexer nesse status quo comporta riscos severos. Um deles, o da sobrevivência própria de quem os assume - da sobrevivência do bom nome, da paz de guardar a privacidade do dia-a-dia íntimo.
Fernanda - podia ser Adelaide, Clementina ou Constança - é um mero pretexto. É a brecha que o franco-atirador encontra no muro da privacidade do alvo.
